LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 3
Vantagem
Capítulo 3 — Café James desembarcou em Charles de Gaulle às oito e quarenta da manhã, foi direto para o carro do torneio sem desviar pelo duty-free, e estava no Pullman antes das dez. Demorou doze minutos para fazer o check-in porque havia uma família americana à frente dele que tinha entendido errado a reserva. James esperou em silêncio, com a mochila no chão entre os pés, lendo no celular um texto sobre a meia-vida de polímeros usados em encordoamento. O texto era do site técnico de um fabricante alemão, e tratava da degradação química do poliéster sob umidade. Era informação que ele não usava diretamente — quem trocava as cordas era a equipe — mas que ele lia porque entender a degradação do material por dentro ajudava a entender por que algumas cordas perdiam tensão em três horas de jogo e outras em sete. James acreditava em ler manuais de coisas que outras pessoas usavam por ele.
Quando finalmente chegou ao quarto, no nono andar, abriu a porta e Callum já estava lá.
Era um detalhe que James tinha aceito ao longo dos anos. Callum sempre chegava antes. Não importava quem tivesse comprado a passagem primeiro, quem tivesse o voo mais cedo, em que cidade do mundo o torneio fosse. Callum sempre estava no quarto quando James abria a porta. Era como se ele se materializasse. Em Cincinnati no ano anterior, James tinha chegado em três da manhã num voo direto de Toronto, e Callum estava lá, dormindo de bruços no sofá do quarto, com o telefone na mão.
— Você demorou — disse Callum, sem levantar os olhos do telefone. Estava deitado numa das camas, sapatos no chão ao lado, jaqueta em cima da escrivaninha. Cabelo ruivo bagunçado de viagem, barba de dois dias.
— Vinte minutos de atraso no avião.
— O café aqui é horrível, só pra te avisar logo. Já fui ao restaurante de baixo. Tem três máquinas — duas estão quebradas e a terceira faz um café que tem gosto de papelão queimado. Vou ter que sair pra comprar.
— Onde?
— Tem um lugar a três quadras. Vi no Maps. Avaliação 4,6 com seiscentos comentários. A foto do barista parece confiável.
— A foto do barista.
— Sim. Tem barista com cara de quem leva café a sério e barista com cara de quem leva o emprego a sério, e isso é diferente. Esse aí leva café a sério.
— Tudo bem.
James pôs a mala no canto. Tirou o estojo das raquetes — seis, todas idênticas, numeradas com fita preta de um a seis — e pôs sobre a escrivaninha. Foi para a janela. O quarto dava para o lado oposto ao de Valentina, embora ele não soubesse disso. Dava para a entrada do hotel, para a alameda de árvores, para o portão de segurança onde dois agentes da gendarmerie verificavam credenciais.
— Como foi Roma? — perguntou Callum.
— Quartas.
— Eu sei que foi quartas, eu vi. Como foi *jogar*?
— O saibro estava lento. O bounce era irregular. Perdi pra Andreescu porque ele jogou bem e eu não me ajustei.
— Você sempre diz isso.
— Sempre é verdade.
Callum levantou da cama. Foi até o armário. Tirou de lá uma sacola de papel pequena, marrom.
— Trouxe pão. Comprei na boulangerie quando saí pra ver o café.
— Que horas você chegou aqui?
— Sete da manhã.
— Você dormiu?
— No avião.
James assentiu. Pegou um pedaço de pão. Era massa fermentada, ainda morno, com casca crocante. Callum tinha bom paladar para coisas básicas — pão, café, manteiga. Era a única forma de sofisticação que ele cultivava. No resto, comia o que aparecia, em qualquer ordem, em qualquer hora, sem reclamar.
Comeram em silêncio por alguns minutos. James na escrivaninha, Callum sentado na borda da cama. O telefone de Callum vibrou duas vezes. Ele olhou, riu de algo, não comentou.
— A draw saiu — disse Callum.
— Eu vi no avião.
— Você está no setor inferior. Cabeça três. Estréia contra Vrána.
— Vrána, sim. Joga melhor do que o ranking.
— Eu falei isso ano passado em Cincinnati. Você não acreditou.
— Eu acreditei. Só que ele perdeu pro Tsitsipas em três sets.
— Ainda assim.
Callum se levantou, foi até o telefone que tinha deixado sobre a mesa. Mexeu na tela. James continuou comendo.
— Você viu que a Ferraro está no torneio? — disse Callum, casualmente, sem virar.
James engoliu o pedaço de pão. Tomou um gole de água.
— Ela está sempre nos torneios, Cal.
— Sim, mas você viu?
— Vi a draw inteira. Ela está no setor superior. Cabeça quatro. Não temos chance de cruzar.
— Isso não é uma resposta.
James olhou para Callum. Callum tinha virado e estava encostado na escrivaninha, com o telefone na mão pendurada para baixo, olhando para ele com uma expressão que James reconhecia. Era a expressão que Callum fazia quando estava esperando James entender uma coisa que Callum considerava óbvia.
James não tinha paciência para essa expressão. Nunca tinha tido.
— Que tipo de resposta você quer, Cal?
— Não sei. Algo que tenha mais informação do que o relatório do torneio.
— Eu não tenho mais informação do que o relatório do torneio. Ela é cabeça quatro. Está no setor superior. Não temos chance de jogar contra. Não temos jogo de duplas marcado. Não vamos nos cruzar fora do refeitório. O que mais você quer que eu diga?
— Cara — Callum olhou para o teto, sorriu para si mesmo, e voltou a olhar para James. — Você é uma pessoa muito difícil de conversar às vezes.
— Você mencionou o nome dela. Eu respondi sobre o que tinha pra responder.
— Tudo bem.
— Por que você mencionou?
Callum ficou em silêncio por alguns segundos. Pôs o telefone no bolso. Pegou outro pedaço de pão.
— Porque ela está nos torneios, e eu sempre acho engraçado lembrar você disso. Como uma pessoa lembra ao amigo que existe um buraco no chão. Não pra ele cair. Pra ele saber que tá lá.
— Não tem buraco nenhum.
— Tudo bem.
— Cal, sério.
— Tudo bem, James.
Callum levantou, pôs a sacola de pão sobre a mesa. Pegou a jaqueta. Ia sair de novo, provavelmente atrás do café.
Antes de abrir a porta, parou. Ficou de costas, com a mão na maçaneta.
— Vrána é destro com slice de backhand — disse Callum. — Ele não confia no segundo saque dele. Se você pressiona o segundo, ele faz dupla falta.
— Eu sei.
— Beleza.
Saiu.
A porta se fechou. James ficou sozinho.
Ficou parado um momento, sentado na escrivaninha, olhando para a sacola de pão. Depois desfez a mala, organizou as raquetes na escrivaninha em fileira, pendurou as roupas — sete camisetas brancas, três shorts brancos, uma camiseta de manga longa para o aquecimento, uma jaqueta cinza. Pôs as meias na gaveta. Pôs as bandagens, fitas, sprays, no segundo gaveta. Pôs os tênis no chão do armário, em fila. Era um ritual de chegada que ele fazia há anos. Sem ele, não conseguia descansar no quarto. Hotel desfeito era ruído.
Quando terminou, sentou na escrivaninha. Abriu o tablet. Foi para a planilha que mantinha desde o início da temporada.
Era uma planilha simples. Linhas: torneios. Colunas: condições da quadra (tipo, velocidade, bounce), adversário previsto na primeira rodada, estado físico dele no início da semana, estado físico no final. Mais uma coluna chamada *notas*. Era ali que ele escrevia coisas como *errei muito segundo saque na sexta*, ou *Andreescu jogou ângulo aberto que eu não cobri*. Não era estatística. Era memória externa.
Ele abriu a linha de Roland Garros. Preencheu as condições da quadra: *saibro lento, bounce médio-alto, vento variável conforme o estádio*. Preencheu o adversário: *Vrána, tcheco, n. 47, slice de backhand*. Preencheu o estado físico: *bom, joelho direito sem sintomas, costas ok*.
Parou na coluna *notas*.
Olhou para a tela por um tempo.
Depois escreveu: *Ferraro no torneio. Setor superior. Sem cruzamento esportivo previsto.*
Apagou.
Reescreveu: *Atenção máxima ao segundo saque do Vrána. Sair do peloteio na primeira oportunidade de subir.*
Salvou. Fechou o tablet.
Ficou parado um momento, olhando pela janela, para a alameda de árvores.
Ele tinha entendido perfeitamente o que Callum estava tentando fazer. Não era a primeira vez. Callum vinha fazendo o mesmo movimento desde dois anos atrás, mais ou menos, com uma frequência que James tinha começado a notar embora nunca tivesse comentado. Sempre que o nome de Valentina Ferraro aparecia num contexto profissional — uma vitória dela em algum lugar, uma menção numa entrevista, uma transmissão de bar — Callum dizia uma frase qualquer e olhava para ele.
James tinha desenvolvido o hábito de não responder.
Não porque tivesse algo a esconder. Não tinha. Sabia perfeitamente quem Valentina era — top 8, jogo de fundo, backhand cruzado mortal — porque sabia quem todos os top 10 eram. Mulheres e homens. Era a profissão dele. Memorizar adversários, ainda que adversários hipotéticos, fazia parte. Em qualquer entrevista ele saberia dizer o nome dos top vinte do circuito feminino, dos top quarenta do masculino, dos juniores em ascensão. Era informação. Era o que ele coletava.
Mas ele não sabia o que Callum esperava que ele dissesse. *Sim, Cal, eu noto que ela existe.* O quê, mais? O que mais existia para dizer?
Ele pensou nisso por mais alguns segundos. Depois decidiu que não valia a pena pensar em algo que ele não conseguia formular.
Pegou o telefone. Mandou mensagem ao treinador: *Cheguei. Quadra de prática às catorze e trinta?*
A resposta veio em segundos. *Confirmado. Quadra dezesseis.*
James pôs o telefone de lado. Foi até a janela. Encostou a testa no vidro.
Lá embaixo, na alameda de árvores, viu Callum atravessando a entrada do hotel com um copo de café na mão. Estava conversando com alguém — outra pessoa do circuito, que James não reconheceu de cima. Callum gesticulou, riu. Cumprimentou a pessoa com um soco no ombro e seguiu para dentro do hotel.
James afastou a testa do vidro. O ponto onde a pele tinha tocado o vidro deixou uma marca embaçada que sumiu em segundos.
Olhou para o relógio do quarto. Onze e quinze. Tinha três horas antes do treino. Podia descansar, podia comer mais alguma coisa, podia revisar vídeo de Vrána. Decidiu por vídeo.
Pegou o tablet de novo. Abriu a pasta de adversários. Tinha cinco arquivos sobre Vrána, dos últimos doze meses — três no saibro, dois no rápido. Começou pelo mais recente do saibro, Roma, três semanas antes. Vrána tinha perdido na segunda rodada para um francês jovem, em três sets duros.
Acelerou para os games de saque do Vrána. Estudou o toss. Estudou o pé direito que carregava o peso. Anotou: *toss alto, peso atrás, momento de bater bem ao zênite*. Era previsível.
Catorze e trinta. Quadra dezesseis. Vrána era destro. Slice de backhand. Segundo saque vulnerável.
Era nisso que precisava pensar.
Era nisso que ele ia pensar.