LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 3
Fissura
Capítulo 3 — Primeira Reunião
Erik chegou à sala de integração às 8h51.
Não era protocolo. A reunião era da equipe de recursos humanos e dos líderes de pesquisa — ele havia aparecido em duas reuniões de integração nos últimos cinco anos, e só porque havia sido convidado explicitamente. Esta não era um desses casos. Esta manhã ele havia acordado às 5h30 como de costume, tomado café preto na cozinha do apartamento que a empresa mantinha a quatro quarteirões do hotel, lido dois relatórios de campo que estavam na fila há três dias, e então aberto o calendário e visto: Reunião de Integração — Novos Pesquisadores, 9h, Sala Borgarnes.
Fechou o calendário. Abriu o email. Fechou o email. Abriu o calendário de novo.
Às 8h48 estava no corredor do segundo andar com uma xícara de café que havia esquecido de beber.
A sala Borgarnes tinha capacidade pra vinte pessoas e havia quinze sentadas, mais três ainda chegando. A equipe de integração no fundo — Sigga da RH, Magnus que liderava o campo de Hveragerði, Thorvaldur de financiamento de pesquisa. Os novos pesquisadores espalhados, a maioria com aquela qualidade particular de pessoas inteligentes que ainda estão mapeando onde ficam as coisas.
Ele sentou no lado do conselho. Era o que ele fazia quando estava presente mas não presidindo — canto, posição de observação, sem projetar autoridade que não havia sido pedida.
Ela estava no meio da mesa.
Era o lugar que ela escolheria, ele pensou — não na ponta (não queria presidir), não no canto (não estava se escondendo). No meio. Com um caderno de campo aberto, não um laptop, o que era incomum para alguém na área de dados. Cabelo preso mas com um cacho rebelde escapando no lado direito. A jaqueta técnica de ontem substituída por uma camisa de flanela azul e um cardigan mais escuro.
Ela não olhou pra ele quando ele entrou.
Sigga fez as apresentações de protocolo — bem-vindos, estrutura da empresa, cronograma das próximas semanas. Erik ouviu com a parte do cérebro que fazia isso automaticamente, o resto estava calibrando.
Quando a rodada de apresentações individuais chegou, ela disse: — Sofia Barros, ciência de dados, Porto Alegre, Brasil. Aqui pra trabalhar com otimização de modelos preditivos nos dados de campo geotérmico. — Pausa de dois segundos. — Ainda me adaptando ao fuso horário, então se eu parecer lenta hoje estou na verdade rápida pro meu horário atual.
Alguém riu. Ela não riu — disse isso como fato, não como piada, o que tornava mais engraçado.
Depois das apresentações: o momento central da reunião. Cada novo pesquisador apresentava seu plano de projeto, quinze minutos cada. Era protocolo padrão. Ele normalmente não ficava pra essa parte.
Ficou.
O dela era o quinto da ordem. Ela abriu um arquivo no laptop — ele não tinha visto ela abrir o laptop antes, o caderno de campo estava ainda aberto ao lado — e projetou na tela da sala uma estrutura que Erik reconheceu imediatamente como análise de cluster hierárquico aplicado a dados de temperatura de subsolo.
— O projeto central é otimização de extração com base em modelagem preditiva de temperatura e pressão, — ela disse, — mas o que eu quero desenvolver ao longo dos doze meses é uma camada de análise de anomalia em tempo real que nos permita identificar instabilidade antes que ela afete produção.
Magnus inclinou levemente a cabeça. Erik viu isso.
— Os modelos existentes no campo, — ela continuou, projetando um segundo slide — ele notou que eram poucos slides, toda a substância estava no que ela estava dizendo, não no que estava projetado — trabalham com médias de janela temporal de seis horas. Isso cria um lag de resposta que eu acredito ser desnecessário dada a capacidade computacional disponível. Quero testar janelas de quarenta minutos com sinalização de threshold adaptativo.
— Quarenta minutos é ambicioso pra dados de subsolo, — disse Thorvaldur.
— É. Mas o ponto de referência de seis horas foi estabelecido quando o custo computacional era diferente. Não há razão técnica pra manter. — Ela olhou pra Thorvaldur sem defensividade. — Vou testar antes de comprometer recursos. Posso ter uma prova de conceito em três semanas.
Erik estava ouvindo com a parte específica do cérebro que ficava silenciosa quando havia algo bom acontecendo. Era uma parte que às vezes ficava quieta por meses.
Ela apresentou por mais dez minutos. Não havia floreio na apresentação — cada slide existia porque precisava, cada frase carregava dado ou análise, nenhuma frase existia pra preencher espaço ou parecer mais impressionante do que o conteúdo justificava. Quando terminou disse "é isso" sem o "alguma pergunta?" performático.
Havia perguntas. Magnus fez duas técnicas boas que ela respondeu com precisão. Thorvaldur fez uma sobre custo computacional que ela havia previsto — ele viu na forma que ela já tinha os números prontos.
Erik não fez pergunta nenhuma.
Ela não olhou pra ele em nenhum momento da apresentação de forma diferente do que olhava pra qualquer outra pessoa na mesa. Varredura regular de atenção distribuída pelo público — 3 a 4 segundos em cada pessoa, retornando periodicamente ao projetor. Quando passou por ele foi igual a quando passou por Sigga, por Thorvaldur, por Magnus.
Isso era, ele percebeu, tanto irritante quanto exatamente o que deveria ser.
A reunião terminou ao meio-dia e trinta. Ele se levantou antes dos outros, cumprimentou Sigga brevemente, saiu.
De volta ao escritório no terceiro andar: mesa limpa por filosofia, não por ausência de trabalho — tudo no sistema, nada em papel exceto o caderno de campo que existia desde os anos de campo ativo. A janela dava pro pátio interno, onde havia uma muda de bétula que o departamento de facilities havia plantado há dois anos com otimismo e que havia sobrevivido ao primeiro inverno porque alguém estava atento.
Ele ficou na janela por um tempo não calculado.
Depois abriu o ramal interno. — Astrid.
— Sim? — A assistente tinha o tom de alguém que já sabia que havia algo vindo que não era reunião de rotina.
— Os pesquisadores novos. Há um arquivo de histórico acadêmico que foi compilado antes da contratação?
— Há. Quero que você encontre o de Sofia Barros e me mande.
Silêncio de dois segundos que era comprido demais pra ser só busca de arquivo. — Já.
— Obrigado.
Ele fechou o ramal. Voltou pra janela.
Não era protocolo pedir histórico acadêmico de pesquisador após contratação. O histórico fazia parte do processo de seleção, que ele não presidia — havia uma equipe pra isso, havia Thorvaldur, havia o conselho científico. A contratação já estava feita. O histórico, agora, servia propósito que não era profissional.
Ele sabia disso. Era importante saber o que você estava fazendo mesmo quando estava fazendo de toda forma.
O email de Astrid chegou em quatro minutos. Ele abriu.
Mestrado em ciência de dados pela UFRGS, dissertação sobre modelos preditivos aplicados a geofísica — a especificidade não era coincidência, ela havia se posicionado deliberadamente pra este tipo de contrato. Dois artigos: um em coautoria na Physical Review Applied, outro solo numa revista de dados que ele não conhecia mas que o índice de impacto no rodapé indicava como sólida. Três conferências. Uma menção honrosa num prêmio de análise de dados do setor energético que ele havia patrocinado dois anos atrás — ele parou nessa linha. Releu.
Não havia como ter sido entrevistada por ele. O processo de seleção era administrado separadamente. Mas havia chegado até aqui por um caminho que passava, indiretamente, por um prêmio que a empresa havia apoiado.
Tinha vinte e seis anos. Ele tinha quarenta e oito.
Esses não eram pensamentos que precisavam de análise adicional por hoje.
Ele fechou o email e abriu o relatório de campo de Hveragerði que estava na fila.
Às 14h havia uma reunião de conselho sobre financiamento para nova perfuração. Ele foi, presidiu, tomou decisões que estavam dentro do que os dados suportavam. Era bom nisso — não havia sido sempre, havia levado anos aprender que decisão boa é decisão que os dados suportam, não decisão que o instinto prefere, e havia levado mais alguns anos aprender que às vezes essas duas coisas coincidem e quando coincidem o resultado é melhor do que qualquer uma das duas separada.
Sigrid havia dito uma vez, no terceiro ano de empresa, quando ele ainda misturava instinto e dado de forma não-funcional: você vai aprender a distinguir entre o que você quer que seja verdade e o que é verdade. Ela estava certa. Levou mais três anos.
Às 17h30 ele saiu do escritório.
Na rua: o vento de outubro que não era negociável, a luz que estava se indo embora com a pressa do outono nórdico, o cheiro de sal e, quando o vento mudava de direção, o fantasma de enxofre que vinha de Hveragerði a trinta quilômetros. Ele havia parado de notar esses cheiros há anos. Haviam se tornado fundo fixo, como o som do sistema de aquecimento.
Caminhou quatro quarteirões até o apartamento. Preparou comida simples porque era o que fazia quando não havia reunião de jantar — ovo, pão escuro, queijo, uma fatia de salmão que havia comprado no sábado. Comeu em pé no balcão da cozinha olhando pro pátio interno do prédio onde o vizinho do segundo andar havia esquecido uma bicicleta amarrada há seis meses.
Pensou: janela de quarenta minutos com threshold adaptativo. É ambicioso pra dados de subsolo.
Pensou: mas o ponto de referência de seis horas foi estabelecido quando o custo computacional era diferente. Não há razão técnica pra manter.
Tinha razão sobre isso.
Ele lavou o prato, foi pro escritório do apartamento, leu por uma hora. Às 22h estava deitado com os olhos abertos no teto escuro, que era o jeito que o sono chegava há três anos — não de uma vez, mas em camadas, como sedimento.