LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 3
Cúmplice Perfeita
Acordei às seis e quinze com o sol já claramente decidido a respeito da temperatura do dia, que seria alta. A Toscana em agosto não tem vergonha do que é: forno bonito com vista para vinhedos.
Às sete, Matteo estava me esperando no pátio com duas xícaras de café e a expressão de alguém que já trabalhou duas horas antes de essa hora chegar. Me entregou uma das xícaras sem perguntar se eu queria, o que é um nível de leitura social que aprecio em pessoas que geralmente não falam muito.
A visita aos vinhedos durou quarenta minutos. Matteo explicou o ciclo de cultivo, o sistema de irrigação, as variedades de uva — Sangiovese principalmente, com algum Merlot nas parcelas mais novas que ele mencionou com o neutro específico de alguém que não aprova inteiramente mas executa profissionalmente. Eu fiz as perguntas que fariam sentido de uma pessoa que está fazendo auditoria de uma propriedade vinícola: produção anual, percentual exportado, distribuição de responsabilidades. Matteo respondeu com precisão e sem ornamentação.
Quando terminamos a volta pelo vinhedo e voltávamos para o pátio, eu perguntei, casualmente:
— O senhor trabalha com seu pai há quanto tempo?
— Desde os dezoito anos, — ele disse. — Fui para escola de enologia em Siena. Voltei. Nunca fui embora de verdade.
— E gosta?
Ele considerou isso mais seriamente do que eu esperava.
— Gosto do trabalho, — ele disse, finalmente. — Gosto das videiras.
Não disse que gostava da tenuta. Não disse que gostava de trabalhar com o pai. Fiz a nota mentalmente.
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Com Carlo, o caminho foi diferente.
Carlo Ferrini me encontrou na biblioteca depois do café da manhã — uma sala no andar térreo com prateleiras do chão ao teto e documentos encadernados que iam desde o século XVIII até pastas plásticas contemporâneas, o arquivo de quatro gerações de uma família que nunca jogou nada fora. Ele apareceu com a pontualidade ansiosa de alguém que estava esperando do lado de fora por um tempo razoável antes de bater.
— Signora Cavalcante, qualquer coisa que precisar, estou à disposição.
— Obrigada. — Eu estava com uma pasta de documentos de 1947 na mão e a expressão de alguém muito interessada em inventário histórico. — Na verdade, queria conversar um pouco. Para entender melhor a estrutura familiar antes de mergulhar nos documentos.
Carlo puxou uma cadeira com o entusiasmo contido de alguém que esperava ser útil e está aliviado por ser chamado.
— Claro. O que a senhora quer saber?
O que eu queria saber era: quem é o herdeiro que o meu cliente quer que eu encontre, qual é a situação jurídica real da tenuta, e por que um cliente anônimo contratou uma investigadora brasileira para vir à Toscana verificar uma identidade que esse cliente claramente conhece melhor do que eu.
O que eu perguntei foi:
— Pode me contar um pouco sobre a história da família? Especialmente nos últimos trinta, quarenta anos.
Carlo contou. Demorou quarenta minutos. Aprendi que: Aldo havia assumido a tenuta do seu próprio pai na década de oitenta; que havia expandido a produção de vinho significativamente; que Carlo havia estudado administração em Milão antes de voltar para ajudar o pai; que Sofia havia "escolhido outro caminho" — dito com a neutralidade cuidadosa de alguém que aprendeu a descrever um conflito sem inflamar; que Matteo era "o coração da produção"; que a tenuta era lucrativa mas enfrentava "desafios de mercado como qualquer negócio".
Sobre herdeiros, parentes distantes, ramificações da família que eu devesse verificar: nada. Carlo mencionou uma tia materna que havia morrido na década de noventa e dois primos do lado da mãe de Aldo que moravam em Florença. Nomes, sem detalhes.
— O senhor sabe se há outros parentes? Do lado paterno, talvez? Ramos da família que possam não estar... em contato frequente?
Carlo me olhou por um segundo com algo que não era exatamente desconforto, mas que era adjacente.
— Não que eu saiba. A família paterna de meu pai era pequena. Ele era filho único.
Anotei. Agradeci. Carlo saiu parecendo simultaneamente útil e ligeiramente aliviado de estar saindo.
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O cliente havia sumido na tarde do segundo dia.
Eu havia enviado três mensagens desde a minha chegada — um relatório de check-in, uma solicitação de clarificação sobre o alvo da investigação, e uma pergunta direta sobre o nome do "parente" que eu estava supostamente ali para verificar. As mensagens tinham marcações de entregues. Nenhuma resposta.
Sentei na biblioteca e olhei para o meu telefone por mais tempo do que é profissionalmente útil.
Existem três razões pelas quais um cliente some no meio de uma investigação:
Primeira: emergência pessoal. Improvável em clientes que pagam adiantado e usam voz modificada em chamadas de vídeo — esse nível de preparação sugere que a pessoa não tem emergências inesperadas, tem planos que não incluem você.
Segunda: a situação mudou e o cliente não quer mais o serviço. Possível. Mas nesse caso o padrão é uma mensagem de encerramento, não silêncio. Silêncio é desleixo ou é escolha.
Terceira: o cliente está esperando que você faça alguma coisa antes de reaparecer.
A terceira opção era a mais inquietante porque eu não sabia o que essa coisa era.
Tentei triangular pelo que tinha: uma família de vinícola toscana, um patriarca de setenta e dois anos, três filhos adultos (dois claramente presentes, uma recém-chegada que eu ainda não conhecia), uma nona que falava português em momentos estratégicos, e uma missão de verificar a identidade de alguém cujo nome e paradeiro eram completamente desconhecidos para mim.
Quem era o parente?
Não era Carlo — Carlo era claramente legitimado dentro da estrutura. Não era Matteo — mesmo status. Sofia, talvez? Mas Sofia era filha reconhecida, arquiteta estabelecida em Milão, não havia motivo para verificar identidade de alguém cujos documentos o próprio Aldo certamente conhecia.
Então quem?
Alguém de fora. Alguém que ainda não havia aparecido. Alguém que o cliente sabia que estava chegando, ou que já havia chegado em algum ponto, e cuja existência precisava ser verificada por razões que eu não entendia completamente.
Fechei o tablet com mais força do que necessário, o que não resolveu nenhum problema mas foi satisfatório de maneira breve.
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À tarde, tive uma conversa mais longa com Giulia, que estava supervisionando a limpeza de uma das salas de recepção com a autoridade tranquila de alguém que conhece cada centímetro da casa.
Giulia era, descobri, a pessoa mais útil e ao mesmo tempo mais difícil de investigar na tenuta. Útil porque tinha conhecimento de tudo — o calendário da família, os fornecedores, a história das reformas, quem visitava e quando. Difícil porque toda informação que ela dava era completa, precisa e completamente não-reveladora de nada que eu não poderia encontrar em um prospecto de turismo rural.
— A família recebe muitas visitas? — perguntei, enquanto ela arrumava flores em um vaso com a competência de alguém que fez isso cem vezes.
— Durante a época de colheita, sim. Compradores, importadores. Jornalistas às vezes, quando publicam sobre vinhos toscanos. — Ela arrumou uma última flor e se afastou para verificar o conjunto. — Turistas não. A tenuta não é aberta ao público.
— E visitas mais pessoais? Parentes, amigos de fora?
— Sofia vem de Milão algumas vezes por ano. A família de Carlo tem parentes em Roma que aparecem nas festas. — Giulia virou para mim com um sorriso perfeitamente adequado. — É uma família que valoriza a privacidade. A senhora entende.
Entendia. Fiz a pergunta de outro ângulo:
— O senhor Aldo tem amizades antigas? Pessoas que conheça há muitos anos?
— O senhor Aldo é um homem de trabalho. Suas relações são principalmente profissionais. — Giulia pegou o cesto de materiais de limpeza. — Mas se a senhora precisar de nomes de contatos de negócios, Carlo tem tudo isso organizado.
Saí da conversa com exatamente a mesma quantidade de informação com que havia entrado.
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Naquela noite, tentei o cliente mais uma vez.
Desta vez, em vez de uma mensagem, tentei ligar. A chamada foi diretamente para o correio de voz. O número havia existido porque eu havia ligado para ele durante o processo de contratação — mas aquele correio de voz com voz robotizada que me pedia para deixar mensagem poderia ser de qualquer número descartável comprado em qualquer lugar.
Deixei uma mensagem. Disse, com o profissionalismo de alguém que está começando a ficar levemente impaciente:
— Preciso de confirmação de identidade do alvo para prosseguir. Sem essa informação, não tenho como executar a missão conforme acordado. Aguardo contato.
Encerrei a chamada. Fora da janela, a adega tinha luz outra vez.
Eu não sabia quem estava procurando. O meu cliente havia sumido. E eu estava numa propriedade de quatro séculos em um país que não era o meu, com um italiano de setenta e dois anos que me havia recebido como uma inconveniência e uma família inteira que ou sabia o que eu estava fazendo ali ou não queria saber.
Em São Paulo, eu teria ligado para a minha ex-chefe, pedido uma busca no sistema e resolvido isso em dois dias.
Na Toscana, eu tinha videiras, cantuccini e nenhuma resposta.