LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 3
Cinquenta e Dois
O email chegou numa segunda-feira de manhã, quando ela estava no escritório revendo especificações de granito para um projeto em Coqueiros que tinha atrasado por culpa da marmoraria — a marmoraria que havia confirmado o prazo de entrega por escrito e depois havia demorado mais quinze dias por razão que o proprietário explicou com aquele embaraço específico dos fornecedores que sabem que erraram e que preferem não elaborar muito sobre o erro. Era dez e vinte. O café estava frio. A caixa de entrada tinha a resposta da marmoraria com a data revisada — Marta a leu, anotou no cronograma, enviou mensagem de confirmação ao cliente do Coqueiros com a linguagem precisa que usava para transmitir informação inconveniente sem criar alarme desnecessário. Tinha também duas mensagens de clientes, uma sobre acabamento de piso e outra sobre uma reunião que precisava ser remarcada. E tinha um email de Marco Bernárdez com o assunto "Oportunidade — Hotel Gorriti, BA — confidencial."
Marco Bernárdez era arquiteto em Buenos Aires, amigo do Luís Carneiro que tinha sido o cliente da cobertura de Jurerê — aquele projeto que tinha exigido dela o que ela mais gostava de dar: a solução que o espaço estava pedindo havia anos antes que alguém soubesse perguntar a pergunta certa. Ela conhecia Marco de uma conversa de uma hora num jantar em São Paulo em 2022, quando Luís tinha organizado um encontro informal de profissionais de arquitetura e design que começou como reunião e virou dez pessoas numa mesa de restaurante em Pinheiros às onze da noite discutindo se o brutalismo tinha futuro no mercado residencial brasileiro — argumento que ela defendera com a convicção irritante de quem sabe que está certa mas que sabe também que o mercado é mais lerdo que a convicção. Marco era inteligente e econômico com as palavras de um jeito específico que ela associava mais a engenheiros do que a arquitetos — ouvia antes de falar, ponderava antes de responder, não precisava preencher o silêncio com opinião. Ela tinha guardado o contato com a intenção vaga e genuína de que um dia poderia haver um projeto conjunto, o tipo de intenção que existe como possibilidade antes de ter forma.
O email dizia:
*Marta, Luís me disse que você está disponível para projetos maiores este ano. Tenho um cliente aqui em BA que está reformando um hotel boutique em Palermo Soho e precisa de uma diretora criativa de interiores — alguém com sofisticação e sensibilidade histórica, que saiba trabalhar com prédio de 1923 sem apagar o que o tempo fez. Projeto de dois meses no mínimo, possivelmente três. Orçamento sólido. Cliente sério. Se tiver interesse, me liga e te conto mais.*
Ela leu duas vezes. Na segunda leitura foi mais devagar, parando em "sensibilidade histórica" e em "sem apagar o que o tempo fez" — formulações que alguém que conhecia o trabalho dela tinha usado para descrever o que o projeto precisava, ou formulações que o próprio Marco havia escolhido porque entendia. De qualquer forma eram as formulações certas.
Depois foi até a máquina de café, fez um expresso novo, voltou para a mesa e leu uma terceira vez. Na terceira leitura ela não estava procurando informação nova — estava verificando se a reação dela à segunda leitura se mantinha na terceira. Se manteve.
O que ela sentiu não foi — ela fez questão de ser precisa com ela mesma, porque imprecisão emocional era o tipo de coisa que levava a más decisões de projeto e a más decisões de vida, e ela estava num momento em que as duas categorias precisavam de atenção redobrada — não foi o alívio de sair de Florianópolis. Não foi a urgência de fuga que ela às vezes lia nos artigos sobre divórcio tardio, aqueles textos que insistiam que a mulher liberada precisava de uma viagem transformadora, de um reinício em cenário exótico, de uma narrativa de recomeço que tivesse a estrutura dramática de um romance. Essas narrativas a cansavam com sua insistência na virada, na paleta completamente nova, no descartar como estratégia de cura. Ela não estava descartando nada. Estava inventariando.
O que ela sentiu foi interesse profissional genuíno, limpo e direto como a especificação técnica de um material bom. Hotel boutique. Prédio de 1923. Palermo Soho. Ela tinha feito, ao longo dos últimos quinze anos, quatro projetos de interiores de hotéis — dois em Florianópolis, um em Porto Alegre com piso de pedra quartzito que era o detalhe mais certo que ela havia especificado naquele ano, um em Campos do Jordão que tinha sido coberto por duas revistas especializadas e que ela ainda considerava um dos melhores que tinha feito porque havia resolvido o problema da escala de montanha sem pastiche alpino, sem a madeira aparente decorativa que os clientes sempre pediam e que ela havia substituído por concreto aparente de granulometria fina que honrava a frieza do altitude de um jeito que a madeira pintada nunca honraria. Hotel era um problema complexo que ela gostava de maneira particular: a tensão entre o histórico e o funcional, entre o estético e o durável, entre o que o espaço era e o que o projeto podia revelar que ele sempre poderia ter sido se alguém soubesse ler a camada certa.
Prédio de 1923 em Palermo Soho era, especificamente, interessante de um modo que o despertou com aquela precisão de um problema bem formulado. A arquitetura portenha daquele período tinha uma qualidade que ela reconhecia das leituras — o ecletismo que veio com a imigração europeia massiva do final do XIX e início do XX, o ornamento que não era decoração por decoração mas que carregava uma intenção estética de quem havia atravessado o Atlântico com algum vocabulário de beleza na memória e que havia reconstruído esse vocabulário no novo continente. Prédios que carregavam a memória de outro lugar dentro da estrutura do lugar onde estavam. Ela entendia isso de um jeito visceral.
Ela abriu o Google Maps e procurou Rua Gorriti, Palermo, Buenos Aires. A rua apareceu no mapa — estreita, com a arborização visível mesmo na visão de satélite, no coração do bairro que ela conhecia de uma visita de trabalho em 2018, quando havia ido a um congresso de design e aproveitado uma tarde para caminhar por Palermo Soho sem agenda e com os olhos abertos. O bairro era exatamente o tipo de espaço urbano que ela lia como projeto bem-feito: densidade sem sufocamento, mescla de usos — residencial, comercial, cultural, gastronômico — convivendo na mesma escala sem hierarquia rígida, a rua que pertencia ao pedestre sem excluir o carro, as fachadas antigas que haviam absolvido as intervenções novas sem perder a espinha dorsal do vocabulário original. A escala humana que os urbanistas defendiam em teoria e que raramente saía do papel. O Gorriti era um dos eixos históricos do bairro, com os platãos velhos e as fachadas dos anos vinte e trinta que ela havia fotografado naquela tarde de 2018 com o celular, sem razão de projeto, só porque a forma como a luz de tarde de Buenos Aires pega na pedra calcária daquele período é uma coisa que você quer ter na memória.
Ela ligou para Marco.
A conversa foi direta, o jeito que ela preferia — Marco explicou o projeto em mais detalhe: orçamento, cronograma, a natureza do cliente. Quando ele terminou ela não perguntou sobre o orçamento nem sobre as condições contratuais.
— Fale do cliente — ela disse.
— Eduardo Castilho. Argentino, mora em BA, chef. Tem um restaurante já aberto em Thames que é referência no bairro há alguns anos — culinária portenha com influência italiana, esse tipo de lugar que não precisa de marketing porque a lista de espera faz o marketing. O hotel é um projeto pessoal, prédio da família que ele comprou de volta há dois anos de um primo que tinha herdado e que não sabia o que fazer com o prédio. — Uma pausa. — Não tem pressa, mas tem visão. Não é o tipo que quer hotel de boutique genérico com azulejo de metrô e lâmpada Edison e chamam de "industrial chique." Quer que o espaço conte alguma coisa.
— Quando começaria?
— Ele quer reunião de alinhamento em junho. Você ficaria no projeto até agosto no mínimo, talvez setembro se a obra atrasar — e obra sempre atrasa.
Junho. Daqui a seis semanas. Ela abriu mentalmente o calendário — os dois projetos de Florianópolis em andamento, a conversa com Patrícia que precisaria acontecer, as comunicações com os clientes.
— Você pode me mandar as fotos do prédio?
Ele mandou enquanto ainda estavam ao telefone — um arquivo com vinte e duas imagens tiradas com câmera boa, não com celular, o que ela interpretou como respeito pelo espaço: alguém que havia encomendado as fotos havia tido o cuidado de usar o instrumento certo para o espaço que merecia registro correto. Ela foi abrindo uma por uma enquanto Marco falava sobre detalhes contratuais que ela ouvia com uma parte do cérebro enquanto a outra parte processava as imagens.
Fachada de tijolos com detalhe em cerâmica que alguém, em alguma renovação dos anos oitenta, tinha pintado de branco com aquela intenção unificadora que não havia entendido o que estava cobrindo. O branco estava descascando agora em várias seções, revelando a cerâmica original embaixo — azul-cobalto com padrão geométrico, portuguesa ou espanhola, a cerâmica que os imigrantes europeus usavam em exterior como marca de origem. Ela já sabia o que fazer com aquele detalhe. Não repintar. Retirar o branco e deixar o que estava embaixo.
Pátio interno com parreira antiga — uma Vitis vinifera, ela apostava pela forma dos galhos que reconhecia das parcelas de vinho que havia visitado numa viagem ao sul em 2015, provavelmente trazida por algum imigrante italiano no começo do século como todos os imigrantes traziam alguma coisa de casa que não cabia na mala mas que cabia na terra. Os tetos do pátio ainda tinham as telhas francesas originais, cor de barro cozido que o tempo havia uniformizado em algo mais escuro, mais honesto. Escadaria de madeira que alguém havia preservado — provavelmente por falta de verba para substituir, que era às vezes a melhor razão de preservação. Pisos de ladrilho hidráulico em estado variado — alguns quebrados, a maioria intacta sob uma camada de cimento aplicada nos anos setenta que ia precisar ser removida com atenção e com a paciência que os materiais históricos exigem quando você quer recuperá-los sem destruí-los.
Era bonito do jeito que as coisas velhas e honestas são bonitas — não porque foram projetadas para impressionar, mas porque haviam sobrevivido o suficiente para mostrar o que eram. A diferença entre a coisa projetada para parecer bonita e a coisa que se tornou bonita por ter existido por tempo suficiente.
— Tem interesse? — Marco repetiu.
— Tem contrato?
— Posso ter um rascunho para você amanhã.
— Manda.
Ela desligou e ficou olhando para a última foto na tela — um detalhe da parreira no pátio, tirada de baixo para cima, os galhos ainda sem folha do inverno portenho fazendo aquela geometria que as árvores de inverno fazem quando toda a superfície ornamental caiu e o que sobra é só a estrutura. A estrutura da parreira era boa — galhos espessados por anos de crescimento, a madeira escura e densa com os nós que marcavam cada bifurcação de crescimento, os apoios no gradeado de ferro intuitivos e acumulados, sem planejamento original mas com a lógica do tempo que é sempre mais sólida do que a lógica do projeto. A parreira havia encontrado o ferro e havia incorporado o ferro. Não havia sido domesticada pelo ferro — havia incorporado o ferro como material de suporte e continuado sendo parreira.
Ela fechou as fotos e abriu o calendário.
Patrícia ia precisar de uma conversa que Marta já sabia como teria — Patrícia era sócia há mais de dez anos e conhecia o ritmo de trabalho dela melhor do que Rodrigo havia conhecido, e ia entender antes que Marta terminasse de explicar. Os dois projetos que ela tinha em andamento em Florianópolis podiam ser gerenciados à distância com visitas mensais se necessário — ela já tinha feito isso no projeto de Porto Alegre em 2019 e havia funcionado, a especificação de materiais era em grande parte remoto quando você tinha os fornecedores certos mapeados e quando o executor local era confiável. Patrícia era executora local confiável. Os clientes iam precisar ser comunicados com clareza sobre o cronograma — ela era direta com clientes, nunca dizia o que o cliente queria ouvir em vez do que o cliente precisava saber, e era exatamente por isso que os clientes voltavam.
O que ela não fez foi pensar: estou fugindo de alguma coisa. Porque não estava, e ela era precisa o suficiente consigo mesma para saber a diferença entre movimento e fuga. Estava aceitando um bom projeto numa cidade interessante num momento em que sua vida profissional tinha, pela primeira vez em muitos anos, a flexibilidade real de aceitar bons projetos em cidades interessantes sem precisar passar aquela conversa de convencimento que nunca era fácil e que deixava um resíduo.
O casamento tinha sido — entre outras coisas, e ela podia reconhecer isso sem ressentimento, o ressentimento sendo um material que não servia mais para nada útil — uma estrutura que limitava a mobilidade. Não por imposição de Rodrigo, que nunca tinha sido aquele tipo de homem, que nunca havia dito diretamente que ela não podia ir, mas pelo peso acumulado de duas décadas de calendários compartilhados, de filhos pequenos que precisavam de presença constante e que exigiam da mobilidade dela uma geometria específica — nunca muito longe, nunca por muito tempo, sempre de volta para a data combinada. De uma vida que tinha forma e endereço fixo e que ela tinha escolhido, escolhido de verdade, porque era o que queria ser. A escolha havia sido dela, não dele. E agora a escolha seguinte também era dela.
Agora os filhos tinham endereços próprios — São Paulo e Berlim e a independência que ela havia trabalhado para construir neles como boa construtora que sabe que o objetivo não é a obra mas o que a obra permite que aconteça. A vida tinha noventa e quatro metros na Lagoa da Conceição e um tapete ainda enrolado contra a parede.
E havia um prédio de 1923 em Palermo Soho com uma parreira velha num pátio e ladrilhos hidráulicos debaixo de um cimento dos anos setenta que precisavam ser revelados por alguém que soubesse ler a camada certa e que não tivesse medo do que estava embaixo.
Ela abriu um novo email.
*Marco, obrigada. Vou esperar o rascunho do contrato. Tenho interesse.*
Fechou o computador às onze e quarenta. Ficou sentada um momento com as mãos na mesa, olhando para o espaço do escritório — a parede de cimento aparente, o piso de concreto polido, a mesa de madeira com a superfície riscada de anos de trabalho que ela nunca havia lixado de volta porque os riscos eram a história da mesa. Esse era o espaço que ela havia construído como reflexo do que ela sabia que era.
Depois foi comer uma coxinha na padaria do lado porque tinha esquecido de almoçar desde a segunda reunião da manhã e era exatamente o tipo de detalhe de cuidado próprio que ela estava aprendendo, aos quarenta e nove anos, a não ignorar mais com aquela desatenção eficiente de quem tem muita coisa mais importante para fazer do que comer. A coxinha era boa. O dia estava frio. A Buenos Aires estava a seis semanas.