LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 3
Acorde
Santo André ficava a quarenta minutos de Pinheiros se você pegasse o metrô certo e não esperasse no ponto. Nayara tinha feito esse percurso centenas de vezes e ainda errava o ponto uma vez a cada três visitas. Não por distração — ela prestava atenção em tudo. Era mais que a geometria do caminho mudava dependendo de como ela estava indo, e ela sempre ia um pouco diferente: quando estava bem, tomava o metrô; quando estava processando alguma coisa, demorava mais no trajeto a pé até a estação; quando estava num estado que ela não conseguia nomear mas reconhecia pelo modo como observava as pessoas na calçada sem fotografá-las, ia de carro.
Naquela quarta-feira ela foi de carro, porque tinha a câmera e dois rolos de filme extra e porque às vezes a clausura de quarenta minutos dentro de um carro com a própria cabeça era exatamente o que a situação requeria. O rádio ligado em alguma estação de notícias que ela não estava processando — só o som de voz humana como textura de fundo, sem conteúdo.
O apartamento do pai ficava num bloco de quatro andares numa rua com árvores antigas que inclinavam as raízes para o meio da calçada, criando aquelas ondulações no concreto que faziam o bairro parecer que estava em ebulição permanente, lenta. Ele morava ali há dezessete anos, desde que a mãe de Nayara tinha ido embora — não embora morreu, embora foi para Minas com outro homem quando Nayara tinha onze anos, o que era o tipo de ausência que nenhuma psicóloga do plano de saúde vai conseguir resolver em seis sessões mas que ela tinha, ao longo de vinte e sete anos, aprendido a tratar como dado do mundo em vez de ferida aberta. Dado do mundo: a mãe foi. A gráfica ficou. O pai ficou. A câmera ficou. Era o inventário do que era permanente.
O pai abriu a porta antes que ela tocasse a campainha. Tinha essa habilidade desde sempre — ouvia os passos no corredor e identificava os dela. Ela nunca tinha conseguido replicar o truque, nem com a câmera. Havia tentado uma vez, posicionada no corredor do bloco com a câmera levantada, esperando alguém que ela esperava conhecer — o olho dela identificava a pessoa pelo enquadramento, não pelo som.
— Cheguei — ela disse.
— Vi — ele disse.
Marcos Vaz tinha cinquenta e cinco anos e a aparência de alguém que havia resolvido parar de competir com o tempo há muito: cabelos brancos de vez, óculos novos que ainda não tinham amolecido no rosto, avental de cozinha com uma mancha de molho que era provavelmente de ontem. Ele abraçou ela com o abraço específico dele — firme mas curto, porque os dois tinham um acordo tácito de que afeto demais num gesto único era desperdício e que o afeto era mais bem distribuído em pequenas quantidades ao longo do tempo, como tempero.
— Arroz já está — ele disse indo para a cozinha.
— Não precisava cozinhar — ela disse, sabendo que era uma coisa completamente sem sentido de dizer porque ele sempre cozinhava quando ela ia. Era o ritual que ele não ia abrir mão independente do que ela dissesse, e ela dizia para manter o ritual de ela protestar e ele ignorar.
— Você parece que não comeu hoje de manhã.
— Comi pão.
— Eu disse comer.
Ela deixou a bolsa da câmera em cima da cadeira na entrada — sempre ali, nunca no chão porque o chão de Santo André tinha aquela trepidação de bloco antigo que ela não queria que a câmera absorvesse — e foi para a cozinha seguindo o cheiro de alho e louro que era a assinatura olfativa de toda visita ao apartamento do pai.
A cozinha do pai era o oposto da dela: cheia de coisas, mas cada coisa com sentido estabelecido e respeitado. Uma série de fotos dele e da banda de boteco que ele tocava nos anos oitenta, coladas na parede perto da janela — não emolduradas, simplesmente fixadas com fita adesiva com a informalidade de quem não estava preservando, estava convivendo. Uma prateleira com especiarias que ele usava de verdade: cominho, pimenta-do-reino inteira, canela em pau, louro seco. O violão encostado no canto entre a geladeira e a parede, sempre lá, sempre levemente desafinado porque ele afinava só antes de tocar e tocava quando tinha vontade, não por obrigação de instrumento.
Ela se sentou na cadeira de sempre — a que ficava de frente para a janela, de onde podia ver o garfo de luz que a tarde fazia quando entrava pelo basculante aberto.
— Você viu o email que mandei? — ela perguntou.
— Sobre a turnê?
— Isso.
Ele mexeu o arroz sem se virar, o que era a posição que ele adotava quando estava processando antes de responder. — Vi. Setembro.
— Você conhece?
Ele finalmente se virou, com a colher na mão, e tinha aquele sorriso que aparecia quando ele estava um pouco orgulhoso e não queria mostrar muito — os lábios fechados, o canto levantando mais do lado direito. — Conheço sim. O segundo álbum é bom.
— Ouvi ontem.
— E?
Ela encolheu um ombro. — Bom. A voz é boa. Arranjos honestos.
Ele assentiu, satisfeito com o veredicto que confirmava o dele, virou para o fogão. — O Rafa Drummond toca guitarra lá. O estilo dele é interessante — tem influência de blues que ele não deixa óbvio mas está lá. Você ouve nas passagens de ponte, quando ele não está mais preocupado com o refrão e deixa a mão ir.
— Você estuda as bandas que não são suas?
— Eu estudo tudo. — Pausa, o tipo que adicionava informação em vez de preencher espaço. — Não tenho mais banda, Nay. Tenho tempo livre para estudar o que quero.
A banda do pai tinha encerrado há três anos, não por briga, apenas por esgotamento natural dos quatro integrantes que envelheceram de formas diferentes e em direções diferentes — um tinha se aposentado de vez dos shows, outro tinha mudado para o interior, o terceiro tinha tido problema de saúde que tornava os ensaios semanais impraticáveis. O pai tinha levado com a calma de quem já sabia que ia acontecer, que havia lido os sinais com antecedência suficiente para não ser pego de surpresa. Tocava violão sozinho agora, às vezes ia a barzinhos no bairro ouvir outras bandas, nunca reclamava de nenhuma das duas coisas. Era o tipo de homem que havia encontrado uma maneira de envelhecer sem tratar a passagem do tempo como adversária.
Ela tirou a câmera da bolsa — a câmera estava sempre com ela, até no almoço do pai, especialmente no almoço do pai, que era onde algumas das melhores fotos que ela nunca publicara tinham acontecido. Levantou, enquadrou: ele de costas no fogão, a luz da janela criando um triângulo claro na parede à esquerda, o violão no canto completando a composição. Era uma foto que ela tinha tirado em variações dezenas de vezes ao longo dos anos. Cada vez diferente. Cada vez ele estava em etapa diferente do arroz, os ângulos do ombro mudavam levemente com os anos, os cabelos estavam mais brancos, a postura um pouco diferente — mais curva a coluna que antes, mas não de fragilidade, mais de intimidade com o próprio corpo que só vem com o tempo.
Ela clicou.
Ele ouviu o clique — sempre ouvia — mas não se mexeu. Tinham chegado nesse acordo também: ele deixava fotografar, ela não ficava fazendo mais de três fotos seguidas no mesmo momento, porque três fotos dava para escolher a melhor, quatro já eram demora.
— Hamburgo em junho — ele disse, ainda de costas. — Frio.
— Sei.
— Leva roupa adequada. Você sempre subestima frio europeu.
— Eu fui a Portugal —
— E ficou com frio. Eu lembro porque você reclamou no WhatsApp por quatro dias seguidos sobre o casaco que não tinha levado.
Ela não respondeu porque era verdade. Portugal tinha sido setembro, que no Brasil é quase primavera e em Portugal é outono, e ela havia passado a primeira semana achando que o desconforto ia passar até aceitar que não ia e comprar um casaco numa loja perto do hotel que tinha custado mais do que ela queria gastar e que era o melhor casaco que ela tinha até hoje, guardado no armário em Pinheiros há cinco anos.
Ele serviu o almoço. Arroz, feijão, frango com tempero específico dele que ela nunca tinha conseguido reproduzir não por falta de tentativa mas porque ele nunca media nada — jogava na intuição com a segurança de quem fez a mesma coisa cinco mil vezes e o corpo já sabia as proporções sem precisar do cérebro para confirmar.
Eles comeram. Esse era um dos silêncios bons — os que ela conseguia estar dentro sem precisar preenchê-los, sem aquela ansiedade de que silêncio significava desconforto ou distância ou falta de assunto. Com a maioria das pessoas, silêncio era desconforto gerenciado, era o estado que você saía o mais rápido possível preenchendo com qualquer coisa que parecesse conversa. Com o pai, silêncio era simplesmente o estado padrão entre uma coisa e outra, como a pausa entre dois compassos.
— Quanto tempo você fica lá? — ele perguntou.
— Seis semanas. Hamburgo, Berlim, Londres, Paris, Madrid.
— E depois?
— Volto para SP. Entrego o material, faço a edição.
— Não perguntei sobre trabalho.
Ela olhou para o prato. A colher refletia a janela em miniatura, o mundo em proporção reduzida como sempre acontecia com superfícies côncavas.— Depois volto.
Ele assentiu, não pressionou. Era uma das coisas que ela mais respeitava nele: sabia quando a pergunta tinha chegado até onde podia ir sem forçar uma porta que não estava aberta. Perguntava uma vez. A segunda pergunta ele sabia que não ia ser respondida da forma que queria.
— Seis semanas é tempo — ele disse, de forma que era neutra mas não era neutra.
— É o tamanho da turnê.
— É tempo para muita coisa. — Pausa. — Ou para muito trabalho e nada mais, dependendo de quem vai.
Ela ergueu o olhar.
Ele estava olhando para o prato com aquela concentração específica que ele usava quando estava dizendo uma coisa em voz alta que havia dito primeiro para si mesmo várias vezes, que havia testado internamente antes de trazer para o espaço entre eles.
— Pai.
— Estou falando de maneira geral — ele disse, e a leveza na voz era um pouco forçada mas não de forma ofensiva, era a leveza de quem estava dando espaço de saída para os dois. — Você fotografa bem porque olha muito. Mas às vezes olhar e estar são coisas diferentes.
— Estou sempre onde estou.
— Com a câmera na frente.
Ela não respondeu. Pegou o copo d'água. A água estava na temperatura que a água de torneira de prédio antigo ficava em junho — nem fria, nem morna, exatamente o ponto em que o sabor da água desaparece e fica só a textura.
— Não é crítica — ele disse. — Aprendi a mesma coisa do meu próprio jeito. Eu ficava atrás do violão. Sua avó ficava atrás da faxina. Todo mundo tem o instrumento que usa para administrar o espaço entre eles e o resto.
— A câmera é o trabalho.
— Também é.
Eles ficaram em silêncio por um momento. O apartamento tinha os sons específicos de apartamento antigo do ABC: o barulho distante de carro na rua, o frigobar funcionando no corredor, alguém no andar de cima com o passo pesado de pessoa que nunca aprendeu que andares de baixo ouvem o que os de cima pisam.
Ela pensou em dizer alguma coisa mas não sabia bem o quê — era o tipo de conversa que ela reconhecia como importante sem conseguir encontrar a resposta que não soasse como defesa. Porque era defesa. E as duas pessoas na mesa sabiam disso, e a honestidade do pai era exatamente o que tornava a defesa desnecessária e ainda assim inevitável.
— Como está o violão? — ela perguntou.
A mudança de assunto foi aceita com a graça de quem sabe receber recuo sem transformar em derrota, sem guardar o ponto para trazer depois num momento mais inconveniente.
— Aprendi uma coisa nova. — Ele levantou, foi até o canto, pegou o violão com o cuidado específico que ele nunca aplicava a mais nada — não à louça, não ao carro, não ao próprio corpo — só ao violão, como se o instrumento fosse a única coisa que exigia esse nível de atenção. — Um choro que eu nunca tinha acertado o ritmo. Mas acho que agora estou chegando perto.
Ele tocou alguns compassos em pé, sem sentar, como quem está testando o terreno antes de se comprometer com a cadeira e com o tempo que ela implicava. A nota era boa. O ritmo tinha aquela imprecisão controlada que choro precisa para não soar mecânico — a síncope que não é erro mas escolha, o levado que respira.
Ela levantou a câmera.
Ele tocou sem se mexer demais, os olhos descendo para os trastes com aquela expressão de escuta que ela conhecia de memória — a testa levemente franzida, os lábios separados, o ombro direito caindo um pouco quando o compasso fechava certo, como um suspiro involuntário de corpo que confirma que chegou onde precisava chegar.
Ela tirou três fotos.
A segunda ia ser boa. A terceira ia ser muito boa — ela havia esperado o momento em que ele levantou o olhar dos trastes para a janela com a expressão de quem está ouvindo em vez de tocando, quando o choro havia entrado nele de uma forma que a execução técnica não capturava.
Depois ele parou, colocou o violão de volta no canto com aquele mesmo cuidado. — Não está pronto ainda.
— Estava bom.
— Estava chegando perto. — Ele voltou para a mesa, sentou, serviu o café que tinha esquecido de servir durante o almoço. — Existem músicas que você passa anos tentando tocar e acha que nunca vai chegar, e um dia você acorda e está lá. Não diferente de fotografia.
— É muito diferente de fotografia.
— É o mesmo. Você procura a foto que quer tirar sem saber que foto é essa até tirar. A coisa que procura e a coisa que encontra raramente são a mesma.
Ela considerou argumentar. Não argumentou porque ele não estava errado, estava descrevendo o processo de uma forma que ela não teria escolhido mas que, nomeado assim, reconhecia como preciso.
Ficaram mais uma hora — ele fez café, ela mostrou algumas fotos do último trabalho no laptop, ele comentou tecnicamente com a precisão de quem nunca estudou fotografia mas entendia luz o suficiente para ter opinião fundamentada: *essa aqui você perdeu o momento por um segundo*, *essa você achou o ângulo certo mas a exposição está pesada*, *essa aqui sim, essa é a que você queria*. Era o que os dois faziam melhor juntos: criticar imagens com vocabulários diferentes que chegavam ao mesmo lugar.
Na saída, na porta, ele colocou a mão no ombro dela por um segundo. Rápido, firme — o abraço que não era abraço, a forma dele de dizer que havia mais do que estava sendo dito e que estava tudo bem que ficasse assim.
— Hamburgo é lindo, Nay. Fotografa os canais.
— Sofia pediu a mesma coisa.
— Sofia é inteligente. — Sorriso, o verdadeiro, o de lado. — Manda mensagem quando chegar.
— Mando.
— E Nayara.
Ela parou no corredor. O corredor do bloco tinha aquela luz de fluorescente antigo que tornava todo mundo levemente amarelado — ela havia feito piores fotos aqui e melhores fotos aqui, dependendo do que estava fotografando.
— Às vezes a foto que vale a pena é aquela que você não estava procurando.
Ela o encarou por um segundo. Ele tinha aquele jeito — parecia que estava falando sobre fotografia, e provavelmente estava, e provavelmente não estava só sobre fotografia, e as duas leituras eram verdadeiras ao mesmo tempo sem que ele precisasse escolher entre elas.
— Tchau, pai.
— Boa viagem.
No carro, de volta para Pinheiros, ela ficou quarenta minutos ouvindo o rádio ligado em uma estação que não estava prestando atenção. Na metade do caminho percebeu que a música que estava tocando era de uma banda que, se tivesse prestado atenção, provavelmente reconheceria como influência do arranjo que tinha ouvido no álbum do Setembro na noite anterior — havia aquela mesma qualidade de guitarra com blues sem revelar a fonte, a bateria que servia em vez de dominar.
Não prestou atenção de propósito.
Quando chegou em casa, a mala ainda estava no estado de desordem controlada que ela tinha deixado. Ela desmontou tudo, começou de novo, dobrou cada coisa com mais cuidado do que era necessário para uma mala de seis semanas — camisetas em quatro camadas planas, calças em rolos que economizavam espaço mas nunca saíam sem amassado. Organização como meditação. Inventário como forma de mapear o que estava levando além das roupas.
Voo era na manhã seguinte. Às cinco da manhã ela ia estar no táxi com a câmera no colo e a mala no porta-malas e seis semanas de trabalho pela frente.
Só isso.