LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 3
Acesso Negado
Capítulo 3: Competência
*Grupo Almeida, 22º andar — segunda-feira, 11h30*
*Caio*
A sala de apresentação da Dataform era idêntica à que Pedro havia descrito depois de uma reunião com o Grupo Almeida três semanas antes — as mesmas janelas, a mesma mesa, provavelmente os mesmos copos d'água que ninguém tocava. O que havia mudado era a composição do comitê: Mariana Luz estava presente, o que confirmava que o processo havia evoluído para decisão técnica, não apenas financeira.
Caio havia reorganizado a abertura da apresentação na manhã de domingo por causa disso.
— A Dataform processa atualmente 2,4 petabytes de dados industriais por mês, distribuídos em setenta e dois clientes ativos em seis estados — disse ele, de pé, sem olhar para o slide porque havia memorizado os números e olhar para o slide sinalizava falta de domínio do que estava apresentando. — Desses, quarenta e três são operações com múltiplas plantas. Dezenove têm mais de cinco unidades integradas em tempo real.
Ele havia aprendido, nos quatro anos desde o Series A, que a abertura precisava fazer uma coisa: estabelecer que ele havia chegado antes, havia ficado, e o que havia construído aguentava o peso de uma operação real. O Grupo Almeida não estava comprando promessa. Estava comprando histórico.
— Quantas dessas são industriais pesadas? — perguntou Mariana Luz. Ela tinha um bloco de notas na frente, papel, não tablet — o tipo de detalhe que revelava preferência por raciocínio linear, não por informação não-estruturada.
— Vinte e sete. Seis no segmento de manufatura de componentes automotivos, oito em agronegócio com processamento em tempo real, treze em outros segmentos industriais. — Caio pausou. — Posso te mandar uma lista anonimizada com porte e volume de dados por cliente se quiser comparar com o perfil do Grupo Almeida.
— Quero.
Pedro já havia anotado.
A apresentação durou quarenta minutos. Caio havia cortado três slides na versão final — slides que explicavam o que a plataforma fazia em vez de mostrar o que ela havia feito. Havia substituído por dois estudos de caso detalhados, com métricas antes e depois, e um demo ao vivo de um dashboard que havia configurado especificamente com os tipos de dado que o Grupo Almeida processava em suas operações de logística.
O demo foi o momento que importou. Ele viu quando Mariana Luz parou de tomar notas e começou a olhar para a tela.
— Como vocês manejam latência em ambientes com conectividade instável? — perguntou ela. — Temos três plantas no interior de São Paulo onde a conexão é problemática.
— Temos um módulo de edge computing que processa localmente e sincroniza em janelas de conexão estável. — Caio clicou para o slide de arquitetura. — A fidelidade dos dados na sincronização é de noventa e sete ponto oito por cento em testes com latência simulada de até quarenta e oito horas sem conexão.
— Como vocês chegaram nessa métrica?
— Implementação real. Cliente em Mato Grosso, operação agrícola com colheita em área sem cobertura de sinal. Posso compartilhar o relatório técnico com NDA.
Mariana fez uma anotação. O CFO estava ouvindo agora, não apenas tolerando a parte técnica.
Quando a apresentação terminou, houve dez minutos de perguntas — todas de Mariana, todas técnicas, nenhuma que Caio não havia antecipado. Isso era bom e também ligeiramente preocupante: se ela estava fazendo as perguntas óbvias, era porque tinha uma lista e estava verificando, não porque estava descobrindo. Ela já sabia o que precisava saber. Estava comparando respostas.
Comparando com quem, especificamente, ele já sabia.
— Obrigado pela apresentação — disse o CFO, com o tom de encerramento que significava que as perguntas substantivas haviam acabado e o que viesse depois seria protocolo. — Vamos consolidar as avaliações e entrar em contato.
— Claro. — Caio se levantou, começou a desconectar o cabo de apresentação. — Qualquer dúvida técnica adicional, pode ir direto para o Pedro.
Enquanto Pedro trocava cartões com a assessora, Mariana Luz se aproximou de Caio. Ela ficou de lado, como se estivesse olhando para a janela, mas estava falando para ele.
— Você e Laura Vasconcelos se conhecem, — disse ela. Não era uma pergunta.
Caio não deixou a pausa durar mais de um segundo.
— Trabalhamos juntos alguns anos atrás. — Ele dobrou o cabo do adaptador com movimentos precisos. — Por que pergunta?
— Curiosidade profissional. — Mariana pegou o bloco de notas da mesa. — O mercado de SaaS B2B analytics em São Paulo é pequeno para o porte das duas plataformas. Processos competitivos acontecem.
— Acontecem. — Caio colocou o cabo na mochila. — Espero que o processo seja útil para vocês, independente da decisão.
Mariana o olhou por um momento — aquele tipo de olhar que calculava mais do que o que estava sendo dito — e depois assentiu levemente.
— Foi uma boa apresentação. — Ela saiu da sala.
No corredor, esperando o elevador com Pedro e Gabriela, Caio ficou em silêncio. Pedro não falou até as portas fecharem.
— Ela sabe da história — disse Pedro.
— Sabe algo. Não sei o quê.
— Acha que isso pesa no processo?
Caio considerou. Mariana Luz era o tipo de profissional que separava narrative de competência. Ela havia feito todas as perguntas certas. Havia anotado todas as respostas certas. Havia dado o tipo de atenção ao demo que sinalizava interesse real, não avaliação protocolar.
— Não acho que pesa para ela. — Ele olhou para o display de andares. — Mas ela está observando.
Pedro ficou quieto por um momento.
— A Laura estava aqui para o mesmo slot?
— Slot diferente. Apresentação separada. — Caio — Mas estavam no mesmo andar.
— Você falou com ela?
— Não.
O elevador chegou ao térreo. Eles saíram pelo lobby, passaram pela catraca de saída, e foram para a calçada da Faria Lima onde o sol da manhã estava ficando forte. Gabriela foi buscar o carro. Pedro ficou ao lado de Caio.
— Foi bom — disse Pedro. — A apresentação foi boa.
— Foi. — Caio olhou para o outro lado da rua, onde um restaurante que ele conhecia já tinha fila no balcão do almoço executivo. — Mas a dela também foi.
Pedro não perguntou como ele sabia. Ele sabia porque conhecia Caio há quatro anos, e conhecia Laura Vasconcelos de nome há quatro anos, e havia aprendido que quando Caio fazia uma afirmação sobre capacidade profissional dela sem qualificação, era porque a afirmação era simplesmente verdadeira e qualificá-la seria desonesto.
— O que fazemos agora?
— Trabalhamos. — Caio começou a andar. — O que sempre fazemos.