LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 3
A Desconhecida
Na quarta-feira, Júlia começou a entender a geometria da mansão.
Não era só o tamanho — era como o espaço estava dividido em camadas invisíveis. Havia a casa dos Cavalcante e havia a casa de quem trabalhava para eles, e as duas existiam no mesmo endereço mas raramente se tocavam. Os funcionários tinham suas entradas, seus corredores, suas escadas de serviço que subiam paralelas à escada principal sem nunca se cruzar. Era uma arquitetura de separação tão antiga que já não precisava de sinalização — todo mundo simplesmente sabia onde estava o seu lugar.
Júlia sabia. E navegava dentro disso sem reclamar, porque reclamar não pagava o tratamento de Dona Rosa.
Mas ela observava.
A sala principal ficava à esquerda do hall de entrada. Era grande, com sofás de couro bege, uma lareira que provavelmente nunca era acesa naquele calor, e uma parede inteira de janelas dando para o jardim. Tinha uma estética de hotel de luxo: impecável, sem personalidade, como se ninguém realmente vivesse ali.
A sala de jantar ficava atrás, ligada à sala principal por um vão sem porta. Mesa de vidro para doze pessoas. Cadeiras estofadas. Um buffet lateral com peças de porcelana que Júlia não tocava nem com o olhar.
A biblioteca ficava no segundo andar, do lado oposto ao escritório de Sílvia. Júlia só soube que existia quando Ana a mencionou de passagem — "o Doutor Eduardo costuma ficar na biblioteca quando está em casa."
Eduardo Cavalcante. O patriarca. Ela não o tinha visto ainda. Ana disse que ele estava em viagem de negócios, voltaria na semana seguinte. Sílvia tinha mencionado o marido uma única vez, na entrevista, e com a neutralidade de quem menciona um móvel da casa.
O que Júlia sabia sobre Eduardo Cavalcante era o que qualquer pessoa com internet podia saber: presidente do Grupo Cavalcante, empresa de construção civil com vinte e oito anos no mercado, casado com Sílvia há trinta anos, um filho — Theodoro, que todos chamavam de Theo.
Ela não tinha procurado mais do que isso. Não precisava. Ela estava ali pelo Bento, não pela família.
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O Bento era mais complicado do que parecia.
No primeiro dia, ela tinha lido a superfície: criança animada, comunicativa, que aceitou ela rápido demais para ser normal. Mas ao longo da semana, ela foi vendo mais. A maneira como ele ficava quieto quando Sílvia entrava no cômodo. O modo como ele repetia certas frases — "a Tia Sílvia não gosta quando", "a Tia Sílvia disse que não" — como se estivesse internalizando um manual de conduta que ninguém tinha pedido para ele decorar.
Ele tinha energia de sobra, mas sabia onde guardá-la. Só deixava escapar quando estava com Júlia e tinha certeza de que não havia adulto por perto.
Na tarde de quarta, eles foram ao quintal com a bicicleta.
Era uma bike sem rodinha auxiliar, tamanho para criança de seis anos, cor azul com algumas marcas de uso. Theo devia ter uns seis anos quando havia aprendido, calculou Júlia. Ela segurou o guidão enquanto Bento montava, instável, os pés mal alcançando o chão.
— Você já andou alguma vez?
— Uma vez. Caí.
— Todo mundo cai. Faz parte.
— A Tia Sílvia disse que eu não precisava aprender agora.
— A sua tia não é você.
Bento olhou para ela. Aquela frase tinha chegado de um jeito diferente — ele percebeu, mesmo sem entender completamente por quê.
— É — disse ele. E colocou os pés nos pedais.
Eles ficaram quarenta minutos no quintal. Bento caiu duas vezes — uma vez de lado, com um raspão no cotovelo que não chegou a sangrar, e outra de frente, com a bike em cima da perna. A segunda vez ele ficou deitado no chão por um segundo antes de decidir o que sentir.
— Doeu? — perguntou Júlia, de joelhos ao lado dele.
— Doeu.
— Vai doer mais amanhã. Quer continuar ou quer parar?
Ele pensou. — Continuar.
— Certo.
Quando voltaram para dentro, Bento tinha um sorriso cansado e sujo de terra no joelho. Júlia o levou direto para o banheiro do primeiro andar — o que era permitido usar durante o dia — e cuidou do arranhão com o estojo de primeiros socorros que Ana tinha mostrado onde ficava.
— Você não tem medo de nada? — perguntou Bento enquanto ela passava o anti-séptico.
— Tenho.
— De quê?
Ela colou o curativo e ficou olhando para o menino. — De coisas que importam de verdade.
— Tipo o quê?
— Tipo perder as pessoas que a gente ama.
Bento ficou quieto. Era o silêncio de uma criança que reconhece algo que não sabe nomear.
— Meu pai e minha mãe foram viajar — disse ele, depois de um tempo.
— Eu sei.
— Faz três semanas.
— Você sente falta?
— Sim. — Uma pausa. — Você sente falta de alguém?
— Sim.
Ele aceitou isso sem mais perguntas. E havia algo nessa troca, naquela brevidade, que estabeleceu entre eles um tipo de acordo que não precisava de palavras.
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Na quinta à tarde, Júlia viu Theo pela primeira vez de perto.
Não contavam o dia da entrevista — naquele dia ele não estava na mansão. O que Ana tinha chamado de "a parte do dia que o Doutor Theo está aqui" variava: às vezes ele saía de manhã e voltava no final da tarde, às vezes passava o dia na empresa, às vezes almoçava em casa.
Naquela quinta, ele almoçou em casa.
Júlia estava na cozinha de serviço com Bento quando ouviu a voz dele pelo corredor — estava ao telefone, tom de trabalho, falando sobre um prazo. Era uma voz grave, objetiva, sem afetação. O tipo de voz que aprende cedo que não precisa se impor porque o peso da família já faz isso.
Bento levantou os olhos quando ouviu. — É o Theo.
— Você gosta dele?
— Ele é legal. Diferente da Tia Sílvia. — Bento voltou para o arroz. — Ele deixa eu jogar no videogame às vezes.
Julio não respondeu. Ficou olhando para o prato.
Pelas frestas da porta da cozinha de serviço ela conseguia ver um fragmento do corredor principal. Viu os sapatos passarem — mocassim escuro, calça cinza — e depois o som dos passos subindo a escada.
Ela não viu o rosto. Mas havia uma presença naqueles passos que ela notou sem querer. O modo como tomavam espaço sem precisar anunciar.
Ela voltou a atenção para Bento.
Não era da conta dela quem era Theo Cavalcante.
Ela estava ali pelo Bento. Pelo dinheiro. Pela Dona Rosa.
Só isso.