LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
Vantagem
Capítulo 2 — Saibro A quadra dezessete ficava num dos cantos do complexo, atrás do Court Suzanne-Lenglen, num grupo de quadras de prática que a maior parte do público nunca via. Era um saibro novo, recém-passado, ainda úmido nos lados, com a cor vermelha mais escura do que ficaria depois de dois dias de jogo. Valentina parou na entrada da quadra e ficou olhando.
Era a parte de Roland Garros que ela mais gostava. Não a quadra principal — a Philippe-Chatrier era impressionante demais, espelhada demais, com gente demais olhando. Eram essas quadras periféricas, vazias, onde se sentia o cheiro do saibro molhado e da grama dos canteiros que cercavam o complexo. Era um cheiro específico. Não tinha em outro lugar do mundo.
Lucia já estava lá, conversando em francês razoável com um dos preparadores da quadra. O homem segurava um balde com uma vassoura de cerdas grossas — tinha acabado de varrer as linhas. Lucia o agradeceu, ele saiu, e a quadra ficou só delas duas.
— Quinze minutos de aquecimento — disse Lucia. — Depois trabalhamos backhand. Rally com a Janka às quatro.
Janka era a sparring que Lucia havia contratado para a semana. Uma búlgara aposentada do circuito, ex-top 30, que ganhava a vida agora viajando com top 10 e batendo bola por hora. Era boa. Devolvia tudo. Tinha um forehand pesado que servia exatamente para simular o tipo de adversária que Valentina enfrentaria nas primeiras rodadas.
— Tudo bem.
Valentina pôs a sacola no banco. Tirou a primeira raquete. Sentiu o peso, mexeu o pulso para conferir o equilíbrio. Cada raquete era encordoada para sentir igual, mas mesmo assim ela sempre conferia. Era um gesto.
Foi para a linha de fundo. Bateu a bola três vezes no saibro com a raquete — verificou o quanto a bola subia. O saibro de Roland Garros tinha um bounce mais alto do que outros saibros do circuito. Roma era mais rápido, Madrid era seco e estranho, Stuttgart era molhado de outro jeito. Roland Garros era alto. As bolas vinham na altura do ombro se ela não cortasse o swing. Se ela cortasse o swing, perdia profundidade.
Era uma negociação que durava duas semanas todo ano.
Lucia foi para o outro lado da quadra. Bateram peloteio a meia velocidade primeiro — bola no centro, profundidade média, sem variação. Foram cinco minutos assim. A respiração de Valentina entrou no ritmo. O pé direito começou a deslizar nos golpes corridos, o esquerdo a parar firme. Os tênis — modelo específico para saibro, com sola em espinha de peixe — começaram a vermelhar nas pontas. Saibro nas meias. Saibro nas canelas. Era familiar. Era bom.
— Mais profundo — disse Lucia.
Valentina ajustou. As bolas começaram a bater perto da linha de fundo do lado dela, e Lucia teve que recuar dois passos. Outra coisa boa.
— Backhand.
Lucia mudou o ângulo dos golpes para o lado esquerdo de Valentina. Valentina respondeu com backhand cruzado — o golpe que a mídia havia rotulado, há dois anos, de *il fulmine*. O raio. Foi um título de matéria que pegou. Hoje, em qualquer transmissão dos italianos, sempre que ela jogava o backhand cruzado mais agressivo, o comentarista repetia a frase. *Ecco il fulmine.* Aqui está o raio.
Ela odiava o apelido por ser dramático. Mas usava o golpe.
Bola alta no backhand. Ela carregou o swing, plantou o pé, soltou o quadril. A bola saiu com angulação, atravessou a quadra na diagonal, e bateu a um palmo da linha lateral do outro lado. Lucia não tentou pegar. Apenas ficou parada, vendo.
— Outra.
Valentina repetiu. Bola alta no backhand, mesmo movimento. A bola foi um pouco mais profunda, mas saiu com a mesma angulação.
— Outra.
— Outra.
— Outra.
Doze repetições. Onze entraram. Uma bateu a fita.
Lucia fez sinal de pausa, foi até o meio da quadra com uma toalha. Valentina foi até ela. Bebeu água.
— Você está tensa.
— Não estou.
— Você está. O ombro está subindo no backswing. Está apertando o cabo.
— Estou bem.
Lucia olhou para ela. Não com afeto materno — com a frieza de uma treinadora que conhecia cada tique técnico da atleta há vinte anos. Era esse o problema com a mãe ser a treinadora. Não tinha por onde escapar. Não dava para mentir.
— A viagem foi puxada — disse Valentina, em italiano. — Roma foi puxada. O voo foi puxado. Eu cheguei hoje.
— Hum.
Lucia bebeu água também.
— A draw está boa — disse Lucia. — Soroka, depois Zhao ou a qualifier. Petrova só nas oitavas. Você tem uma semana boa antes que aperte.
— Eu sei.
— Você viu a draw masculina?
Valentina olhou para ela.
— Por que eu olharia?
— Não sei. Os jornais publicam lado a lado. Achei que talvez tivesse visto.
— Vi de relance.
Lucia assentiu. Não insistiu. Deu meia volta e foi para o outro lado da quadra. Antes de pegar a raquete, sem olhar para trás, disse:
— Whitmore está no setor inferior.
Valentina sentiu o estômago dar um nó pequeno e específico, e quase riu da própria reação. Lucia tinha lido a draw também. É claro que tinha. Lucia lia tudo. E Lucia sabia, do jeito que mães napolitanas sabem coisas sem que ninguém precise dizer, que aquele nome significava alguma coisa.
— Está bom para ele — respondeu Valentina, em italiano, com um tom o mais neutro que conseguiu. — Ele odeia o saibro. Vai se virar.
— Hum.
— *Hum* o quê?
— *Hum.*
Lucia voltou a bater bola.
Trabalharam mais quarenta minutos. Forehand cruzado e paralelo. Saque — Valentina tinha um primeiro saque sólido mas não destrutivo, e o segundo era o ponto fraco; Lucia havia passado o último ano tentando subir cinco quilômetros por hora no segundo, com sucesso parcial. Hoje ela errou três segundos seguidos. Lucia não disse nada. Anotou no caderninho que sempre carregava no bolso do moletom.
Janka chegou às quatro em ponto. Era uma mulher alta, magra, com cabelo grisalho preso, e uma expressão sempre ligeiramente entediada, como se estivesse cumprindo uma obrigação leve. Cumprimentou Valentina em inglês com sotaque eslavo. Foi direto para o lado oposto da quadra.
Bateram peloteio sério. Janka batia forte, com profundidade, com a chatice metódica de quem tinha jogado profissionalmente por quinze anos e não tinha mais nada a provar. Era exatamente o que Valentina precisava — uma adversária que não dava bolas fáceis, que devolvia tudo, que não tentava ganhar pontos. Só batia.
Quarenta minutos de rally. Valentina suava, o coque desfeito, o saibro grudado nos braços. Janka, do outro lado, parecia que tinha acabado de sair do banho.
Ao final, Lucia chamou. Janka acenou para Valentina, pegou a raquete e a sacola, saiu pela lateral.
Valentina foi para o banco. Sentou. Tomou um gole longo de água.
E então, levantando os olhos, olhou para o conjunto de quadras à sua direita — a fileira de práticas que ia da dezessete até a doze.
Na quadra doze, do outro lado do conjunto, separado dela por umas cinco quadras de distância, mas visível através das grades baixas que separavam uma quadra da outra, alguém estava jogando.
Era um homem alto. Estava de costas. Camiseta cinza, shorts brancos, um boné azul marinho. Estava no ato do saque — bola subindo, pernas dobrando — e Valentina reconheceu o movimento antes de reconhecer o corpo. Era um movimento inconfundível. O joelho esquerdo dobrando mais do que parecia natural, o tronco arqueado para trás além do que a maioria conseguia, a bola sendo tocada num ponto altíssimo. Era um saque de top cinco. Ela tinha visto esse movimento em vídeo dezenas de vezes.
A bola foi. Ela não viu onde caiu.
Ele baixou a raquete. Caminhou até a linha de fundo. Recebeu uma bola da treinadora — ela viu uma silhueta menor do outro lado, mas não distinguiu de quem era. Saque de novo. Mesmo movimento.
Valentina olhou por uns dez segundos. Talvez doze. Não conseguiu medir.
Ele não virou. Estava concentrado.
Ela não foi até ele. Não havia razão para ir. Eles não se conheciam de verdade — tinham se cumprimentado no máximo cinco vezes em três anos, sempre com a mesma cordialidade vazia, sempre por exigência protocolar. Roma não entrava nessa conta; Roma tinha sido arquivada em outro lugar, num compartimento que ela não abria. Não havia o que dizer, não havia cumprimento que fizesse sentido, não havia gesto que não fosse estranho.
Ela poderia, se quisesse, simplesmente passar pela quadra dele a caminho do vestiário. O caminho mais curto até a saída do complexo de prática passava bem na frente da quadra doze. Ele ia ver. Ia cumprimentar. Ia ser uma interação de três segundos.
Ela escolheu o caminho longo.
Pegou a sacola, jogou a toalha no ombro, contornou as quadras pelo outro lado. Lucia notou — Lucia notava tudo — mas não disse nada. Caminhou ao lado dela em silêncio.
Atravessaram um corredor entre canteiros. Saíram do complexo de prática. Passaram pela bilheteria, pela área de segurança, pela entrada lateral do estádio que ligava à área dos jogadores.
— Você foi por outro caminho — disse Lucia, em italiano, casualmente, quando estavam quase no carro do torneio.
— Estava com vontade.
— Hum.
— Para de fazer *hum*, mãe.
— *Hum.*
Valentina riu sem querer. Lucia também sorriu de canto.
O carro do torneio estava esperando. O motorista — outro homem, mais novo que o do aeroporto, mas com a mesma camisa azul do staff — abriu a porta.
Valentina entrou primeiro. Pôs a sacola no chão. Encostou a cabeça no banco.
Quando o carro deu a partida, ela olhou pela janela traseira. Conseguia ver, através da cerca, uma fração da quadra doze. Conseguia ver, ainda, a figura cinza no fundo, o boné azul, o movimento do saque repetindo-se com a precisão de um relógio.
Ele estava trabalhando ângulo de segundo serviço. Ela conhecia esse trabalho. Ele jogava o segundo saque com uma colocação que ninguém mais no circuito masculino conseguia replicar.
Ela voltou a olhar para frente. O carro entrou no trânsito de Boulogne.
— Janta no quarto hoje? — perguntou Lucia.
— No restaurante. Quero comer algo decente.
— Tudo bem. Sete e meia.
— Sete e meia.
A janela do carro mostrou as árvores do Bois de Boulogne deslizando para trás. Valentina fechou os olhos por um momento e sentiu o saibro ainda nas pernas, no canto dos olhos, na boca.
Lucia tirou o caderninho do bolso. Folheou. Anotou alguma coisa com a caneta presa na espiral.
— O que você está escrevendo? — perguntou Valentina, sem abrir os olhos.
— Posicionamento do pé esquerdo no backhand cruzado. Você plantou três centímetros mais à frente do que normalmente. Em saibro mais lento isso compensa. Vou anotar pra confirmar amanhã.
— Hum.
— Está bom esse plantio, Valentina. Não estou criticando.
— Eu sei. Você não disse nada na quadra. Se estivesse criticando você teria interrompido.
Lucia sorriu de canto. Era verdade. Lucia interrompia treino para corrigir mecânica errada — era um dos hábitos dela. Não tinha interrompido hoje.
O carro entrou na rua do hotel. Passou pela alameda de árvores. Parou na entrada do Pullman.
O motorista deu a volta para abrir a porta. Lucia saiu primeiro. Valentina pegou a sacola, saiu depois.
Subiram para o quarto. No corredor do oitavo andar, Lucia parou na porta do próprio quarto.
— Banho longo — disse. — Depois descansa. Janta às sete e meia, restaurante de baixo.
— Tudo bem.
— E come, Valentina.
— Eu sempre como.
— Você come pouco quando está pensando em coisas.
Valentina olhou para Lucia. Não respondeu.
Lucia entrou no quarto. Fechou a porta.
Valentina ficou parada no corredor por dois segundos. Depois entrou no próprio quarto.
O quarto estava como ela tinha deixado. A escrivaninha com as quatro raquetes em fileira. O envelope da draw aberto sobre a escrivaninha, com o tablet por cima dele, como ela tinha deixado de propósito.
Ela foi até a janela. Olhou para o céu — ainda cinza, mas com uma faixa de azul aparecendo do lado oeste, no horizonte. Talvez fizesse sol amanhã. Bom para o jogo.
Tomou banho longo. Lavou o cabelo. Tirou todo o saibro das pernas, das mãos, das unhas. A água da banheira ficou marrom-avermelhada nos primeiros minutos, e foi limpando aos poucos.
Saiu do banho. Pôs roupão. Sentou na poltrona perto da janela.
O torneio tinha começado. Era isso que importava.