LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
Maré Alta
PASSADO — Terça-feira | 7 anos atrás
O barco de transferência chegou ao porto de Santo Antônio com vinte minutos de atraso, e Felipe foi o primeiro a desembarcar.
Isso era típico de Felipe: ele tinha o instinto de estar sempre na frente, como se a vida fosse uma fila em que a posição importava. Desceu a rampa com a mochila nas costas e os cílios cerrados contra o sol de março, e quando pisou no cais de Fernando de Noronha esticou os braços para os lados como quem abraça o próprio horizonte.
— Aqui estamos — disse, para ninguém em particular e para todos ao mesmo tempo.
O grupo desembarcou atrás dele, mais ou menos em ordem aleatória: Camila prendendo o cabelo com uma mão e segurando a bolsa com a outra, Lucas ajudando Thiago com uma das malas de equipamento fotográfico, Marina olhando ao redor com aquela atenção silenciosa que ela tinha, como se estivesse catalogando. Ana veio por último, de óculos escuros e fone de ouvido no pescoço, o caderninho já na mão.
Rafael desceu sozinho, alguns passos atrás, e ficou parado no cais por um momento antes de seguir o grupo.
Era terça-feira. Tinham uma semana pela frente.
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O traslado para a pousada levou quinze minutos por uma estrada estreita entre morros de vegetação seca e pedras escurecidas pelo vento marinho. No banco da frente do buggy alugado, Felipe apontava coisas com entusiasmo.
— Olha aquela formação.
— Dá para ver a Baía dos Porcos daqui.
— Dizem que no fim do dia esse caminho fica cor de sangue por causa do sol.
Havia na voz dele uma energia difícil de ignorar. Era o tipo de pessoa que preenchia o espaço, sem agressividade nenhuma, de um jeito mais sutil que isso. Como se, na presença de Felipe, o ar ficasse levemente mais denso.
Camila ria das coisas que ele dizia. Estava sentada do lado dele no banco do meio e ria com o corpo inteiro, jogando a cabeça para trás, e de tempos em tempos ele olhava para ela com um sorriso afetuoso e proprietário ao mesmo tempo.
No banco de trás, Thiago tinha a câmera no colo e fotografava pela janela. Clique, clique. A rocha, a vegetação, o céu largo. Fotografava de um jeito que parecia reflexo, como outros coçam a cabeça ou tamborilam os dedos. O obturador era uma extensão do pensamento dele.
Rafael olhava pela janela do outro lado e não dizia nada.
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O quarto de Felipe e Camila era o maior.
— Sênior suite — ele tinha dito, quando fez as reservas. — Vocês vão adorar, eu conheço o dono.
Esse era outro traço de Felipe: ele sempre conhecia o dono, o gerente, o sócio. O mundo dele era uma rede de conhecimentos úteis, e ele usava esses conhecimentos de um jeito que parecia generoso, mas que trazia embutido o peso de um favor, de uma dívida.
No primeiro dia, isso não pesava. Naquele dia, era só um grupo de amigos numa ilha bonita, desmanchando malas e debatendo qual praia ir primeiro.
Felipe tinha uma opinião sobre cada praia. Ele sempre tinha uma opinião.
— Baía do Sancho de manhã cedo — ele disse, durante o almoço no terraço da pousada. — É a única hora que vale. Depois das dez vira bagunça.
— Eu queria ver a Atalaia à tarde — disse Ana, sem levantar os olhos do cardápio.
— Atalaia você pode ver qualquer hora. — Felipe disse isso num tom de autoridade, sem gota de descortesia, de quem tinha mais informação. — Mas não perca o Sancho cedo, Ana. Sério.
Ana o olhou por um segundo acima dos óculos.
— Certo.
Thiago fotografou essa troca sem que nenhum dos dois percebesse. Depois baixou a câmera e olhou para a tela: a foto tinha ficado boa. A expressão de Ana era o que ele queria: não raiva, não concordância. Algo entre as duas coisas, uma resistência contida.
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Havia uma dinâmica no grupo que qualquer observador externo levaria algumas horas para mapear, mas que Thiago já tinha mapeado nos primeiros meses de faculdade. Ele era, por profissão e por natureza, um observador externo mesmo estando dentro.
Felipe era o centro de gravidade. Thiago não achava que fosse por mal, pelo menos não conscientemente. Algumas pessoas simplesmente tinham aquilo: um carisma que funcionava como massa, que curvava o espaço ao redor. As pessoas orbitavam Felipe sem perceber que estavam orbitando.
Camila ficava mais perto que os outros. Namoravam há dois anos, e havia entre eles a familiaridade íntima de quem passou por muitas noites juntos, mas também uma tensão que Thiago reconhecia: a de dois planetas que orbitam muito perto um do outro, cuja gravidade mútua às vezes é abraço e às vezes trituração.
Ana era a mais independente. Participava do grupo sem nunca ceder o centro de si mesma, mantinha sempre uma parte reservada, observava com aquela atenção jornalística que às vezes parecia clínica. Amiga de todos sem ser propriedade de ninguém. Felipe gostava de Ana, mas havia entre eles um respeito que guardava distância.
Lucas era o mediador. Quando as tensões subiam (e sempre subiam, em grupos assim), era Lucas quem fazia a piada certa, quem propunha o desvio de assunto, quem oferecia outra rodada de drinks. Tinha aprendido cedo que o conflito era perigoso e que a paz, mesmo a artificial, era preferível.
Rafael era a incógnita.
Thiago tinha dificuldade de ler Rafael. Eram amigos, ou pelo menos se chamavam de amigos, o que às vezes era a mesma coisa e às vezes não. Rafael era inteligente, cuidadoso, ambicioso à maneira silenciosa que às vezes era mais perigosa do que a ambição barulhenta. Ele e Felipe tinham história: estudado juntos no mesmo cursinho, passado no mesmo curso de Direito, trabalhado um semestre no mesmo escritório antes de Rafael mudar de empresa. Uma história paralela que em algum momento tinha se cruzado de um jeito que Thiago não sabia qual.
No buggy, Rafael tinha olhado pela janela em silêncio.
Na mesa do almoço, Rafael comeu de bom humor, fez piadas, pediu a segunda rodada de suco. Mas quando Felipe falou sobre as praias naquele tom de autoridade benevolente, Rafael ficou quieto por um segundo antes de sorrir. E o silêncio antes do sorriso era visível, se você soubesse onde olhar.
Thiago sabia onde olhar.
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À tarde foram à Praia do Cachorro porque era perto e a maré estava baixa. Felipe entrou na água imediatamente, nadando com a facilidade de quem cresceu no litoral. Camila ficou na beira, molhando os pés, fotografando-o com o telefone.
Marina ficou sentada numa pedra afastada, lendo.
Ana andou ao longo da linha d'água sozinha, com os pés na água rasa, olhando para o horizonte como quem pensava em outra coisa.
Lucas e Thiago jogaram frescobol por vinte minutos até Lucas errar uma raquetada e a bola ir para o mar. Ficaram rindo enquanto esperavam a maré trazê-la de volta.
Rafael ficou na areia, de costas para a água, olhando para os morros. Não nadou nem jogou frescobol.
Thiago levantou a câmera e fotografou o grupo inteiro numa composição: Felipe ao fundo na água, Camila na beira, Ana caminhando, Marina na pedra, Lucas rindo, Rafael de costas.
Depois olhou para a foto na tela pequena.
Havia algo naquela imagem que o incomodou. Não conseguiu nomear o quê: era uma sensação, não um pensamento. A sensação de que aqueles seis corpos naquele espaço formavam uma geometria que não estava em equilíbrio.
Guardou a câmera e foi nadar.
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No final da tarde, quando voltavam para a pousada no buggy empoeirado, Felipe disse algo que Thiago quase não ouviu por cima do barulho do vento.
Estava dizendo para Rafael, num tom casual, quase de passagem.
— Aquele seu antigo sócio, o Bernardo. Você ainda tem contato com ele?
Rafael virou levemente a cabeça.
— Por quê?
— Ouvi umas coisas. — Felipe deu de ombros. — Nada concreto. Só curiosidade.
Rafael ficou em silêncio por um momento.
— Não tenho mais contato, não.
— Ah. — Felipe olhou para frente, para a estrada. — Tudo bem.
Não era tudo bem. Thiago não sabia o que não era, mas reconhecia o peso de uma conversa que parecia casual e não era. Reconhecia o jeito como Rafael segurou a alça do banco, firme demais, enquanto Felipe olhava para a estrada com um sorriso tranquilo.
A ilha estava cor de sangue, como Felipe tinha previsto.
Thiago não tirou foto.