LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2

Fora do Ar

Margaux Ferreira · romance-contemporaneo

Capítulo 2: Três Batidas

Monaco — Presente (Isabela)

A suíte era a mesma.

Isso sempre a surpreendia, de um jeito irracional — que o Hotel de Paris mantivesse a mesma suíte para ela a cada setembro, que os travesseiros fossem da mesma altura, que a vista para o porto fosse idêntica à que ela tinha visto três vezes antes. Havia um conforto perturbador nessa imutabilidade. Como se setembro fosse uma câmara de fora do tempo, lacrada, onde nada envelhecia.

Isabela deixou a mala na entrada sem abrir. Tirou o blazer, pendurou na cadeira perto da janela. Ficou parada no meio da sala, olhando o porto lá embaixo — a água sob a luz do início da tarde, os cascos dos iates, a linha de edifícios subindo pela encosta. Monaco em setembro tinha sempre a mesma qualidade de luz, densa e direta, sem as concessões do verão europeu.

Ela não sabia que horas ele chegaria. Nunca sabia — essa era a regra não-dita, parte da arquitetura de setembro. Ele chegava. Às vezes no fim da tarde do primeiro dia, às vezes à noite. Uma vez chegou enquanto ela dormia e ela acordou com o som da porta se abrindo e ficou parada no escuro, ouvindo os passos dele aprenderem novamente o espaço do quarto.

Isabela foi até a janela. Abriu ligeiramente — o ar de fora tinha cheiro de mar e de gasolina de embarcações, uma mistura específica que ela não encontrava em lugar nenhum mais. Ficou com as mãos na moldura, sentindo o calor da pedra.

Ela ia dizer. Ia abrir a boca e dizer, de um jeito razoável, com a compostura que tinha treinado a vida inteira. *Lucien. Preciso te contar algo.* Simples. Direto. Depois ele ia saber e ia haver um silêncio — porque ele processava tudo em silêncio primeiro — e depois eles iam ter a conversa que precisavam ter, e aquilo ia ter um fim com forma.

Ela tirou os sapatos. Ficou de meia no mármore frio.

Três batidas na porta. Espaçadas.

Isabela não se moveu por um segundo. As batidas chegaram e ficaram no ar do quarto como algo sólido, como um objeto que de repente ocupa espaço. Três batidas, espaçadas — ela sabia essa cadência. Conhecia desde o segundo setembro, quando percebeu que ele batia assim, sempre assim, como se o intervalo entre cada batida fosse um aviso: *estou aqui, mas não vou entrar sem que você decida.*

Ela andou até a porta.

Ficou com a mão na maçaneta.

Havia — e ela reconheceu aquilo com uma frieza quase clínica — um intervalo entre saber o que ia fazer e conseguir fazer. O corpo sabia o que estava do outro lado da porta. O corpo tinha memória. E havia um momento, sempre breve, em que a memória do corpo entrava em conflito com a decisão da cabeça.

Ela abriu.

Lucien estava no corredor com a mesma quietude que ela associava a ele — uma quietude que não era passividade, mas contenção. Terno escuro, sem gravata, os primeiros botões abertos. Quatro anos e ela ainda precisava de um segundo para calibrar o impacto físico dele, o que era uma informação que ela nunca deu a ninguém.

Ele a olhou. Não de cima a baixo de um jeito lento e deliberado — de um jeito rápido e total, uma varredura que ela reconhecia como característica dele, a forma como ele processava uma sala, uma reunião, uma situação. Ela tinha visto esse olhar em conferências internacionais, quando ele entrava em salas de negociação. Aqui era diferente porque era ela o objeto.

Dois segundos. Menos.

Alguma coisa passou pelo rosto dele que ela não conseguiu nomear antes de ele recompor a expressão.

Isabela recuou um passo. Apenas um — a linguagem que eles tinham desenvolvido sem palavras, o recuo que era convite, o espaço aberto na entrada que dizia *entre*.

Ele entrou.

Não pediu licença. Nunca pedia — essa era outra parte da arquitetura, a ausência de cerimônia depois do primeiro setembro, quando as convenções sociais tinham se tornado desnecessárias entre eles. Ele entrou, e o quarto mudou com a presença dele, e Isabela ficou de costas para a porta enquanto ouvia a maçaneta girar.

Silêncio.

Ela não virou imediatamente. Ouviu o som dos passos dele no mármore — ele ia até a janela, ela sabia, porque era o que ela mesma tinha feito ao chegar. O primeiro gesto de setembro era sempre aquele: a janela, o porto, a calibragem do espaço.

Quando ela virou, ele estava de costas para ela, olhando para fora.

Ela ficou parada. Havia uma conversa que precisava acontecer e havia aquele momento anterior à conversa, o momento em que o espaço entre eles se reajustava depois de onze meses de distância. Era um ajuste real, físico, como a pressão de um quarto que se equaliza quando você abre uma janela.

Ele virou.

Havia algo nos olhos dele — uma pergunta sem forma ainda, uma intuição. Ela o viu notar que a mala estava fechada na entrada, que ela não tinha desfeito as malas. Viu ele processar isso. Viu o momento em que ele decidiu não dizer nada ainda.

Lucien foi até a mesa de apoio ao lado da poltrona. Havia uma garrafa de vinho que o hotel colocara na chegada dela — ele conhecia os hábitos do hotel porque eles tinham os mesmos hábitos de setembro. Ele abriu sem pedir, sem oferecer, como quem faz algo que é evidentemente necessário. Dois copos.

Ela caminhou até ele. Pegou o copo que ele estendeu.

Os dedos deles não se tocaram.

Ela bebeu um gole. Ele bebeu. A janela estava aberta e o som do porto entrava — motores de embarcações, uma voz distante, o que poderia ser gaivota ou poderia ser criança.

— Viagem boa? — perguntou ele.

Voz baixa. Francês com aquele acento específico que ela levou dois setembro para localizar: não Paris inteira, mas algum arrondissement específico, uma qualidade de dicção que era educação e origem ao mesmo tempo.

— Longa — disse ela.

Ele assentiu levemente. Isso era o suficiente.

Ela ficou olhando para o copo. Havia frases prontas, ensaiadas, mas elas existiam numa ordem específica que dependia de um contexto que ela ainda não tinha criado. Não era o momento. Não agora, não dez minutos depois de ele entrar.

Ele chegou mais perto — não muito, apenas o suficiente para que o calor do corpo dele chegasse antes do toque. Ficou ao lado dela, olhando para a janela.

Isabela não se moveu.

Havia algo que acontecia na presença física dele que não acontecia na memória que ela tinha guardado os outros onze meses do ano. Memória era gerenciável. Memória podia ser arquivada, categorizada, acessada quando necessário e guardada quando não era. Isso aqui — o calor, a quietude, a textura específica do silêncio entre eles — isso não era gerenciável do mesmo jeito.

Ela ia dizer. Ia dizer logo. Amanhã, talvez, ou esta noite depois do jantar. Havia tempo. Haviam dois dias ainda.

A mão dele encontrou a dela sem pressa — um movimento que era pergunta e afirmação ao mesmo tempo, os dedos por sobre os dela no copo, e ela não recuou, e aquilo foi resposta suficiente.

O porto lá embaixo continuou o que estava fazendo. Monaco não sabe que existe um fim neste quarto.

CAPÍTULO 3

O Que Ele Viu

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