LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
Fissura
Capítulo 2 — Tabela Hierárquica
Sofia ficou no jantar até as 21h47 — ela viu o horário quando se levantou, porque era o tipo de dado que o cérebro registra automaticamente quando está fazendo contagem regressiva. Despediu-se das pessoas certas, agradeceu à equipe de integração, não olhou pro canto da mesa.
O elevador estava vazio. Quarto andar. Corredor silencioso com carpete de cor indefinida que amortecia os passos.
Entrou no quarto, ficou parada no escuro por três segundos antes de ligar a luz.
Então sentou na borda da cama e começou a processar.
Era o que ela fazia com dados que não se encaixavam no modelo esperado: puxava pra análise manual, item por item, sem pressa. O cérebro de cientista de dados não desligava só porque a situação era pessoal. Se qualquer coisa, funcionava melhor quando havia algo concreto pra mastigar.
Item um: ela havia sentado num bar às 19h, quarenta e cinco minutos antes de um jantar corporativo, com intenção explícita de evitar socialização prematura com colegas de trabalho.
Item dois: havia um homem no bar. Ela foi pro lado oposto por instinto de espaço pessoal. Ele falou primeiro — não de forma invasiva, de forma lateral, sobre o whisky, sobre a escolha dela que já estava feita antes do comentário dele.
Até aí: normal. Barras têm pessoas. Pessoas às vezes conversam.
Item três: eles ficaram trinta minutos. Ela não contou em tempo real, mas a reconstrução depois — o número de rodadas de whisky, o ritmo da conversa, o quanto o barman passou e não parou porque não era necessário — chegava em trinta minutos com margem de erro pequena.
Item quatro: o que ela disse nesses trinta minutos. Isso era o que exigia mais processamento.
Ela havia dito que estava no país por contrato, mas que havia escolhido. Havia explicado a diferença filosófica sem explicar, o que em si já era uma forma de dizer algo — que havia uma diferença, que ela a percebia, que estava cansada demais pra performar clareza. Havia dito de onde era, havia descartado Rio com uma economia de palavras que demonstrava que o assunto já havia acontecido muitas vezes e ela não tinha paciência pra ele, havia dito que Porto Alegre era mais frio do que as pessoas esperavam. Havia dito que ia acostumar levar tempo.
Nada disso era inadequado. Tudo isso era verdade.
O problema não era o que ela havia dito. O problema era como havia dito — sem filtro. Sem o processamento intermediário que ela normalmente aplicava em inglês porque o inglês criava uma distância útil, uma camada de tradução que funcionava como amortecedor entre o que ela pensava e o que saía pela boca. Mas com ele não tinha funcionado assim. As frases tinham saído diretas, na primeira pessoa, sem o lag habitual.
Ela levantou, foi até a janela. Lá fora: Reykjavik às quase dez da noite, que parecia meia-noite porque o céu não negociava. Luzes da rua refletindo em paralelepípedos molhados. Uma pessoa caminhando com capuz levantado. O cume branco da Hallgrímskirkja visível acima dos telhados como ponto de referência fixo.
Por que não havia filtro?
Sofia havia saído de um relacionamento dois anos atrás. Rodrigo, 29 anos, desenvolvedor de software, bonito no tipo específico que envelhece bem mas que no processo torna-se cada vez mais certo de que vai envelhecer bem. A relação havia terminado porque Rodrigo havia dito "você pensa demais" como crítica e ela havia ouvido isso como diagnóstico correto mas não problema — pensar demais era condição de trabalho na área dela, era o jeito que ela processava o mundo, e uma pessoa que queria que ela pensasse menos estava, por extensão, querendo uma pessoa diferente da Sofia.
Ela havia dito isso. Ele havia dito que estava sendo difícil. Ela havia concordado que era.
Dois anos. Nada sério desde então, o que incluía algumas coisas não-sérias que haviam cumprido o propósito sem criar vínculos complicados. Ela não estava com falta de contato humano no sentido básico. Estava, percebeu agora na janela de Reykjavik, com falta de conversa real — do tipo que não exige calibração, que não pede pra você ser uma versão editada de si mesma.
Aquilo havia sido conversa real. Trinta minutos de conversa real com um homem que ela não sabia o nome.
E então a porta do salão de jantar havia aberto.
Sofia voltou pra borda da cama. Deitou de costas, olhando pro teto de hotel que era neutro o suficiente pra servir como tela de projeção pra qualquer coisa que o cérebro precisasse processar.
Erik Andersen. Ela havia verificado o nome duas vezes enquanto estava sentada à mesa porque queria ter certeza que havia lido certo na primeira vez, e havia. CEO. Fundador de segunda geração. Doutorado em engenharia geotérmica pela Universidade de Reykjavik, isso ela sabia porque estava no perfil da empresa que ela havia estudado antes de vir — havia um Erik Andersen lá, foto institucional de homem com terno e expressão de quem não escolheu a foto mas foi fotografado porque era necessário. A foto não havia registrado a altura, as mãos, o jeito que ele ficou no balcão depois que ela foi embora.
Ela fechou os olhos.
A questão não era que era o CEO. A questão era que trinta minutos antes de saber que era o CEO ela havia sido honesta com ele da forma que normalmente levava semanas de conhecimento de alguém, às vezes mais. E ele havia sido honesto de volta — não em palavras, necessariamente, mas no jeito que ficou no balcão. No jeito que não havia tentado impressionar nem se esconder. No jeito que havia dito "vai acostumar" sem a inflexão de quem está tentando parecer sábio.
Isso era perigoso de uma forma muito específica.
Não o cargo. O cargo era complicador logístico, mas não era o que estava no centro do problema. O centro do problema era: ela havia, em trinta minutos, sem planejamento e sem filtro, revelado uma quantidade não-trivial de como ela realmente era para uma pessoa que ela não sabia ser o CEO da empresa que ia pagar seu salário por doze meses, e essa pessoa havia, em contrapartida, revelado uma quantidade equivalente de como ele era — econômico, direto, sem performance, com o tipo de cansaço que vem de anos e não de um dia longo.
E agora havia uma tabela hierárquica. Uma tabela hierárquica muito clara, com ele no topo e ela em algum nível que ela precisaria verificar no contrato de trabalho, mas certamente não perto do topo.
Sofia rolou pro lado, enfrentando a parede.
O problema com tabelas hierárquicas, ela sabia, era que elas criavam assimetrias de poder que transformavam qualquer coisa real em coisa complicada. Ela havia trabalhado numa empresa em Porto Alegre depois da graduação, antes do mestrado, onde havia flertado levemente com um gerente de nível dois, e mesmo isso havia criado textura desnecessária no ambiente de trabalho por meses. Um CEO era diferente por vários fatores de magnitude.
Fatores de magnitude. Ela estava pensando no CEO como fatores de magnitude.
Tudo bem. Ela estava cansada. Dezoito horas de viagem mais três horas de sono mais um jantar que exigiu profissionalismo social num idioma que não era o dela — o cérebro estava trabalhando no modo de emergência, que produzia pensamentos não-lineares.
O pensamento não-linear desta noite era: ele tinha ficado no balcão depois que ela foi.
Ela havia dito "bom jantar" e saído e não olhado pra trás, mas tinha sentido que ele ficou. Não ficou pra pagar, não ficou porque estava a meio copo — estava a meio copo, é verdade, mas havia ficado por uma razão diferente, ou não havia razão e ela estava inventando narrativa em dados insuficientes, o que era o erro número um de qualquer análise.
Não invente narrativa em dados insuficientes, Sofia.
Ela ajustou o travesseiro. Respirou fundo. O aquecimento central do hotel fazia um som baixo e regular de sistema funcionando.
Doze meses. Um contrato de doze meses com a Andersen Energy, projeto de otimização de dados de campo geotérmico, remuneração que ela havia negociado com três contra-propostas porque o número inicial era bom mas não era o número certo. Ela havia chegado até aqui com histórico acadêmico sólido, dois artigos publicados, um projeto de mestrado que havia gerado cobertura na área de energias renováveis. Estava aqui por mérito.
Trinta minutos num bar não apagavam isso. Uma tabela hierárquica não apagava isso.
Ela precisava dormir. Amanhã havia uma reunião de integração às 9h, que estava no email de boas-vindas que ela havia lido três vezes no avião. Reunião de integração significava mais rostos, mais nomes, mais inglês, mais processamento de ambiente novo.
E significava, provavelmente — ela não sabia com certeza, precisaria checar o email de novo — que ele estaria lá também.
Sofia fechou os olhos com firmeza. O tipo de firmeza que você usa quando quer que o cérebro entenda que a conversa acabou.
O cérebro não entendeu imediatamente, que era o problema com cérebros.
Mas o corpo estava exausto o suficiente pra ganhar por contagem de pontos.
Às 23h11 ela estava dormindo, e não sonhou com nada que depois conseguiu lembrar.