LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
Cúmplice Perfeita
O jantar na Tenuta Ferrini era às oito, horário que os italianos consideram normal e que eu, depois de dois anos investigando casos em São Paulo onde "jantar" acontece entre seis e meia e sete, achei levemente desafiador para o meu estômago.
Fiquei com fome. Resolvi usando os cantuccini que Giulia havia deixado no quarto com um bilhete escrito à mão em italiano formal que eu traduzi mentalmente como "para caso a senhora queira algo antes do jantar", que é exatamente o tipo de previsão que as pessoas fazem quando são boas em antecipar necessidades alheias. Anotei isso. Não sabia ainda se era relevante.
A sala de jantar era proporcional ao resto da villa: grande o suficiente para que você percebesse que havia sido projetada para reuniões maiores do que a que acontecia ali naquela noite. Uma mesa comprida de madeira escura, seis cadeiras ocupadas, lustres que provavelmente tinham velas antes de terem lâmpadas. Quadros nas paredes que eu identifiquei como retratos de família pela semelhança entre os rostos pintados e os rostos presentes — o queixo quadrado dos Ferrini aparecia com a regularidade de um carimbo genético.
Aldo sentava na cabeceira. Isso não foi uma surpresa.
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Meu método em jantares de investigação — e sim, existe um método, aprendi na força e refinei na vida privada — é falar pouco, comer devagar e observar quem olha para quem quando pensa que ninguém está olhando.
Naquela mesa, a hierarquia era visível antes mesmo de qualquer palavra ser dita.
Aldo servia o vinho a si mesmo e passava para Carlo, que passava para Giulia, que passava para mim. Matteo se servia. Sofia, que não havia aparecido no meu primeiro dia e cuja chegada eu descobriria no dia seguinte, estava ausente. Nonna Rosa — a mãe de Aldo, setenta e seis anos, pequena, o cabelo branco preso num coque que devia estar no mesmo lugar desde 1970, um cardigã de lã em agosto, as mãos manchadas de sol e cheias de anéis que já não saíam, que eu havia avistado brevemente no corredor antes do jantar — estava sentada à minha esquerda com o ar específico de quem habita uma conversa interior muito mais interessante do que qualquer coisa que acontece em volta.
Carlo disse algo sobre a colheita. Aldo respondeu em italiano rápido demais para eu acompanhar completamente, mas o tom era o de alguém corrigindo um cálculo errado com paciência que tem um limite visível. Carlo assentiu duas vezes, a segunda vez com o cuidado de alguém que assente não porque concorda mas porque já sabe que discordar não é uma opção produtiva.
— Signora Cavalcante, — Giulia disse, virando-se para mim com um sorriso que era genuinamente hospitaleiro, — o senhor Aldo perguntou se a senhora prefere começar com os documentos históricos amanhã ou com uma visita à cantina.
Olhei para Aldo. Ele estava olhando para o vinho no copo com a expressão de quem não fez essa pergunta mas está disposto a ouvir a resposta.
— Os documentos históricos, — eu disse. — Prefiro ter o contexto antes de ver a operação.
Aldo tomou um gole de vinho. Talvez isso fosse aprovação. Talvez fosse apenas sede.
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Matteo Ferrini tinha trinta e sete anos e a economia de movimentos de alguém que trabalha com as mãos e o corpo o dia inteiro e não vê necessidade de desperdiçar energia em gestos que não servem para nada. Ele estava sentado à minha direita, e nas primeiras duas horas do jantar eu soube o seguinte sobre ele: comia com eficiência (não pressa, eficiência — há uma diferença), respondia perguntas diretas com respostas diretas, e não iniciou nenhuma conversa que eu pudesse identificar.
Quando Giulia mencionou que eu poderia querer ver os vinhedos pela manhã, antes do calor, foi Matteo quem disse, sem levantar os olhos do prato:
— Posso mostrar às sete, se a senhora quiser.
— Às sete está ótimo, — eu disse.
Ele assentiu e voltou para a carne.
Nonna Rosa, ao meu lado, disse algo em italiano que eu não entendi completamente mas que incluía a palavra *straniera* — estrangeira. Giulia, do outro lado da mesa, respondeu em voz baixa com a suavidade específica de quem tem prática em redirecionar. Nonna Rosa considerou isso por um momento e depois voltou para o macarrão.
Carlo me perguntou sobre o Brasil. Perguntou se eu era de São Paulo, se era quente, se havia estado na Amazônia. As perguntas padrão que europeus fazem quando querem mostrar que sabem que o Brasil é maior do que o Rio de Janeiro. Respondi com as respostas padrão que eu dou quando estou observando outra coisa e não quero interromper esse processo.
O que eu estava observando: que ninguém, em nenhum momento, perguntou por que eu estava realmente ali.
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Isso é mais raro do que parece.
Na minha experiência — e tenho experiência considerável com famílias que têm segredos, porque é basicamente a indústria em que trabalho — quando alguém de fora chega a uma casa com uma missão vaga, as pessoas que vivem nessa casa geralmente fazem uma de duas coisas: perguntam insistentemente o que a pessoa está fazendo ali, ou fingem que não se importam de maneira tão deliberada que a deliberação fica visível.
Naquela mesa, não havia nenhuma das duas coisas. A ausência de curiosidade era completa e tranquila, como se eu fosse um serviço que haviam contratado e sobre o qual não tinham mais perguntas porque as perguntas relevantes já haviam sido feitas por alguém em outro momento.
Ou porque alguém na mesa já sabia exatamente o que eu estava fazendo ali, e os outros não tinham como perguntar porque não sabiam que havia algo a perguntar.
Comi o risoto. Era muito bom. Anotei isso também, não porque fosse relevante mas porque sou honesta sobre o que é bom quando é bom.
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Às dez e meia, Aldo levantou da mesa sem cerimônia. "Boa noite" foi a totalidade de sua despedida. Carlo levantou junto, como se houvesse um fio invisível entre os dois com comprimento limitado. Giulia começou a organizar os pratos com o mesmo gesto automático de quem já fez isso tantas vezes que o movimento não requer pensamento consciente.
Nonna Rosa ficou sentada olhando para a parede por um momento e depois disse, em português claro e sem sotaque, que me surpreendeu o suficiente para eu quase deixar cair o copo:
— Você é mais jovem do que eu esperava.
Olhei para ela. Ela estava me olhando de volta com uma expressão que era, pela primeira vez naquela noite, completamente presente.
— Esperava alguém mais velho para esse tipo de trabalho, — ela disse, em português. Onde tinha aprendido, não fazia ideia. — Mas talvez mais jovem seja melhor. Os velhos aqui já viram coisas demais. Não conseguem mais ver o que está na frente.
— Nonna, — Giulia disse, em italiano suave, — já está na hora.
Nonna Rosa me olhou por mais um segundo — com o tipo de olhar que às vezes as pessoas muito velhas ou muito jovens têm, que é simplesmente direto sem ser nem ameaçador nem gentil, só direto — e então se levantou com a ajuda da bengala e saiu da sala.
Fiquei sentada com Matteo, que estava terminando o café, e com Giulia, que estava arrumando a mesa. Matteo levantou logo depois, "boa noite" breve e funcional. Giulia me perguntou se queria mais café — recusei, já era tarde demais para o meu sistema nervoso — e saiu pela porta da cozinha com uma bandeja de pratos com a eficiência de quem está encerrando operações.
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No meu quarto, à meia-noite, fiquei na janela aberta.
O ar estava fresco agora, com aquele cheiro específico de campo toscano à noite — terra, plantas, e a fermentação faint que vinha da adega. A lua estava alta e cheia o suficiente para eu ver os vinhedos lá longe, as fileiras de plantas ordenadas como uma escrita que eu não conseguia ler.
A adega.
Havia luz.
Não nas janelas — não havia janelas, era uma construção fechada — mas uma fresta embaixo da porta de madeira pesada que eu havia visto da janela do escritório de Aldo mais cedo. Uma linha de luz dourada no escuro.
"Ele vai todo dia verificar os barris," alguém havia dito. Carlo, talvez, quando me mostrara a propriedade antes do jantar. "Papà é assim. Nunca delegou a cantina para ninguém. Sempre ele mesmo, toda noite."
A luz ficou acesa por mais quarenta minutos, pelo menos — foi quando eu parei de olhar e fui tentar dormir.
Alguém estava na adega à meia-noite.
Provavelmente era só Aldo Ferrini verificando seus barris, como fazia toda noite, como havia feito por décadas, como continuaria fazendo até que não pudesse mais.
Provavelmente.