LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
Cinquenta e Dois
O divórcio tinha começado num restaurante japonês em Jurerê, e havia algo nessa locação que Marta ainda achava esteticamente inadequado — como um detalhe de projeto que contraria o estilo do espaço inteiro. Vinte e dois anos de casamento deveriam terminar num lugar com mais carga arquitetônica. Não num tatami de eucalipto com iluminação de LED embutido e a trilha sonora inadequada de um J-pop instrumental vindo de algum alto-falante escondido no teto, piscando como uma linha de texto em fonte errada no meio de um projeto que pedia outra linguagem inteiramente.
Era novembro. Aniversário de casamento. Vinte e dois anos.
Rodrigo tinha reservado o restaurante há um mês, como fazia sempre — ele era um homem de agenda, de confirmações por email, de lembretes no celular que disparavam com dois dias de antecedência como se a memória precisasse de andaime externo. Marta achava isso organizado e encontrava nessa organização uma forma de cuidado que ela reconhecia — a regularidade como linguagem de amor, o gesto repetido como estrutura de suporte — mesmo quando não sentia mais o que deveria sentir em resposta ao cuidado. Era como reconhecer a qualidade de um revestimento sem querer aquele revestimento no seu projeto. O material pode ser bom. O projeto pode pedir outro.
O restaurante tinha uma parede inteira de pedra e era exatamente o tipo de detalhe que Marta notava primeiro em qualquer espaço, muito antes de notar a iluminação ou o cardápio ou as pessoas — a textura, a forma como a luz pegava a superfície, se era pedra natural ou resina imitando pedra com aquela falsidade educada que enganava quem não tinha passado anos tocando em materiais reais. Era pedra natural, xisto cinza, e alguém havia sido inteligente o suficiente para deixar as imperfeições sem revestimento adicional, as juntas irregulares, uma fissura quase horizontal a meio metro do chão que era história da pedra, não falha do instalador. Ela tinha mencionado isso para Rodrigo quando entraram — a textura do xisto, a honestidade da instalação — o jeito que fazia há vinte e dois anos, porque ele era engenheiro civil e eles falavam de materiais, era uma das linguagens que tinham compartilhado desde o começo, antes dos filhos, antes do escritório, quando a linguagem de materiais era ainda um código entre eles, quase intimidade.
Ele tinha dito — com aquele sorriso específico que ela sabia agora, com a clareza do retrospecto, era de cortesia e não de interesse — que sim, era bonita.
E nesse momento ela tinha entendido.
Não como uma revelação dramática, não como aquelas cenas dos filmes em que o personagem vê de repente a totalidade de algo que estava diante dos olhos. Mais como quando você olha para uma planta baixa antiga e percebe que a divisória que você pensava ser parede estrutural é, na verdade, gesso cartonado — e que a diferença muda tudo sobre o projeto, mas que o projeto em si nunca foi diferente, e que você é que demorou para ler a planta direito porque estava muito ocupada habitando o projeto para conseguir ler a planta. A compreensão que chega não como novidade mas como confirmação demorada de algo que o corpo já sabia.
Ele tinha dito sim, era bonita, com aquele sorriso de cortesia. Ela tinha olhado para ele — Rodrigo com cinquenta e um anos, cabelo branco nas têmporas que o tornava distinto e ligeiramente mais cansado do que ele era, o paletó azul que ela tinha comprado na liquidação de uma loja no Shopping Beiramar porque combinava com os olhos dele, porque havia épocas em que ela ainda notava o que combinava com os olhos dele — e tinha pensado: nós somos gentis um com o outro.
Só.
A gentileza sem o que deveria vir depois da gentileza. O cuidado sem o desejo. O respeito sem a vontade de estar no mesmo espaço. Eram duas pessoas que haviam aprendido a coexistir com excelência técnica, como dois materiais que não reagem quimicamente entre si e que por isso são ótimos juntos em superfícies que precisam de estabilidade mas não de tensão criativa.
Os pratos chegaram — temaki e sashimi que ela comeu sem muito prazer porque seu sistema de avaliação de comida estava, naquele momento, inteiramente suspenso, subordinado ao processamento que estava acontecendo em outro nível. Eles conversaram sobre Lucas, que estava recém-contratado numa construtora em São Paulo e que ligava menos do que ela gostaria com aquela independência de vinte e cinco anos que era certa e que doía do jeito certo. Conversaram sobre Clara, que tinha sido aceita na Hochschule für Musik Hanns Eisler em Berlim e que partiria em março — uma notícia que Marta recebia com o orgulho específico das mães que sabem que o orgulho e a saudade são a mesma emoção com roupas diferentes, e que o melhor presente que uma mãe pode fazer a um filho talvez seja a capacidade de partir com a certeza de que a base é sólida. Conversaram sobre o projeto da cobertura que Marta estava terminando no bairro Coqueiros, sobre a reforma na ponte da Barra que estava atrasando os deslocamentos de todo o mundo com a paciência progressivamente diminuída dos floripanos.
Em nenhum momento eles conversaram sobre eles.
Não porque havia o quê evitar — não havia amante, não havia brigas represadas à espera de uma noite de aniversário para explodir, não havia dívida emocional não paga que exigisse acerto de contas. Havia simplesmente o silêncio educado de duas pessoas que se respeitavam muito e se desejavam pouco e que tinham construído, ao redor desse silêncio, uma vida funcional e bem organizada como um apartamento de bom gosto onde você percebe, eventualmente, que nada está errado mas que também nada está vivo — as superfícies estão limpas, a iluminação está certa, os materiais são de qualidade. Mas ninguém está lá.
Foi Rodrigo quem disse primeiro.
Ele disse — entre o segundo e o terceiro prato, olhando para o saquê com aquela expressão de alguém que está praticando mentalmente uma frase pela última vez antes de pronunciá-la, testando o peso das palavras antes de soltá-las — que tinha pensado muito e que achava que eles mereciam ser honestos um com o outro depois de tanto tempo. Que havia muitos anos que ele sentia que estava falhando com ela de um jeito que ele não conseguia nomear com precisão, que não era falta de amor porque ele a amava, de verdade, mas que talvez amor não fosse suficiente para preencher o que estava vazio entre eles. Que ele queria que ela fosse feliz de um jeito que ele não sabia mais como proporcionar.
Marta tinha ouvido com aquela atenção que ela reservava para as coisas que importavam, sem interromper, deixando as palavras dele chegarem e assentarem. Tinha tomado um gole de saquê, que era frio e limpo e que não tinha nada a dizer sobre o assunto. Tinha dito:
— Eu sei.
Ele a olhou com uma expressão de surpresa e de alívio simultaneamente, que ela nunca esqueceria — a surpresa de quem se preparou para um combate que não aconteceu, e o alívio que vem depois quando você percebe que o outro lado também estava esperando a permissão para admitir o que os dois já sabiam. O alívio dela também, espelhado nele, o reconhecimento de que não era só ela que vinha carregando esse peso particular há anos, que eles dois tinham caminhado juntos pelo mesmo corredor escuro sem mencionar que estava escuro porque era mais gentil não mencionar, mais gentil do que honesto.
Eles foram embora logo depois, o restaurante ainda cheio de outros casamentos que funcionavam ou que também não funcionavam sem saber. Conversaram mais uma hora no carro estacionado na garagem de casa — aquele tipo de conversa que é triste de um jeito sereno, sem acusações, sem a crueldade que a mágoa produz quando se disfarça de argumento. Com a gentileza que vem de duas pessoas que se conhecem bem demais para fingir que o outro é o vilão, e que têm inteligência suficiente para reconhecer que às vezes as coisas simplesmente chegam ao fim do que conseguem ser. Rodrigo tinha chorado um pouco — um choro contido, masculino, que ela reconhecia como o jeito dele de processar o que era grande demais para processar só internamente. Marta tinha ficado com os olhos secos e a mão na dele sobre o câmbio, sentindo o peso específico de uma decisão que era certa mas que ainda doía como todas as demolições certas doem: na medida exata da coisa que existia antes de ser demolida.
Lucas tinha tomado mal. Ela sabia que tomaria — conhecia o filho melhor do que ele achava que ela o conhecia. Lucas era parecido com o pai em temperamento, precisava de estrutura como condição de segurança, e a notícia do divórcio chegou para ele como a descoberta de que uma parede que ele acreditava ser estrutural não era, e que o edifício inteiro precisava ser reavaliado com a perspectiva nova, perturbadora, de que a fundação que ele havia assumido sólida era mais complexa do que parecia. Nas primeiras semanas ele ligou pouco, as ligações curtas e cheias de uma cordialidade tensa que ele ainda não sabia disfarçar. Nas semanas seguintes ele foi passando mais fins de semana em São Paulo na casa do pai, construindo ali uma base alternativa, o que Marta achava saudável mesmo quando doía — os filhos precisam de múltiplas bases, não de uma única que eventualmente também fragmenta. Quando conversavam havia uma cordialidade que Marta reconhecia como o jeito dele de processar sem ter ainda as ferramentas certas para processar, e ela esperava com a paciência que os vinte e cinco anos de conhecê-lo haviam construído.
Ela não forcou. Dava tempo. Sabia que o tempo, com Lucas, era um material que precisava ser usado com cuidado específico, sem pressa e sem abandono.
Clara, do outro lado, tinha ligado em prantos da Alemanha num sábado à noite de novembro, com o choro de fusos horários e distância mas também de algo que Marta levou um momento para identificar corretamente. Clara disse que não estava chorando de tristeza. Estava chorando de alívio, que era talvez a reação mais perspicaz e mais honesta de todas as reações que Marta recebeu durante aquele período. Clara disse que sentia desde os dezesseis anos que havia uma tensão específica entre os pais que não tinha nome no vocabulário familiar — não era briga e não era frieza mas era uma distância gerenciada, um espaço entre dois móveis que foram colocados longe um do outro e que nunca foram movidos de volta. E saber que eles dois tinham finalmente nomeado essa distância, que haviam tido a coragem de olhar para a planta baixa e admitir que a divisória não era estrutural, era estranhamente o melhor presente que poderiam ter dado para ela. Clara disse isso entre soluços e foi a declaração mais articulada, mais direta e mais precisa sobre aquele casamento que alguém havia feito para Marta em todos esses meses.
Ela amava a filha com aquela clareza específica e infrequente que vem das pessoas que enxergam você de um ângulo que você mesmo não consegue — o ângulo que requer distância e afeto ao mesmo tempo, e que Clara, aos vinte e dois anos na Alemanha com o piano e a fria cidade de Berlim, havia de alguma forma cultivado.
Os meses seguintes foram — se ela tivesse que descrevê-los para alguém como Renata, que sempre queria saber como ela estava de verdade e não como ela estava para fins de consumo social — foram como uma demolição planejada. Não caótica, não emocional no sentido de incontrolável. Estruturada, com o cronograma que as demolições controladas têm: essa parte primeiro, depois essa, deixar a fundação para o final porque a fundação é o que você vai aproveitar. A divisão de bens foi feita sem advogados brigando porque não havia muito a brigar — a casa, que ficou com Rodrigo porque ele queria ficar no bairro e ela não sentia mais o bairro como seu, não sabia desde quando o bairro havia deixado de ser seu mas sabia que havia, e que ficar ali seria habitar um espaço que pertencia ao casamento mais do que a ela. O apartamento da Lagoa foi achado e alugado e depois comprado com o dinheiro da meação e com a parcela dela do escritório que Patrícia tinha comprado com aquela precisão calma de negociação de alguém que sabia o que estava comprando e quanto valia.
E então ela estava aqui. Com as caixas numeradas. Com o apartamento de noventa e quatro metros que cheirava a tinta nova. Com quarenta e nove anos e uma vida que não tinha o formato que ela imaginava quando tinha vinte e sete e estava de vestido beige no cartório assinando um papel que naquela época parecia a construção de alguma coisa definitiva e permanente como uma estrutura de concreto armado.
O que era definitivo, ela descobria agora, com a precisão progressiva de quem organiza as descobertas como organiza os materiais de projeto — por categoria, por relevância, por onde vão ser usados — era diferente do que ela pensava. Definitivo não era o casamento. Definitivo eram os filhos, que existiam fora dela e que seguiam seus próprios planos baixos, suas próprias linguagens de materiais, que só em parte haviam herdado dela e que em outra parte eram inteiramente deles. Definitivo era o trabalho, que era dela de um jeito que o casamento nunca completamente foi — porque o trabalho não tinha sido uma escolha que ela fez dentro de outra escolha maior, tinha sido simplesmente ela, desde o começo. Definitivo eram os grisalhos que ela tinha parado de cobrir em fevereiro, a decisão mais pequena e mais simbolicamente carregada que ela tinha tomado nessa fase, e que havia chegado a ela não como proclamação mas como cansaço — cansaço de passar horas a cada seis semanas numa cadeira de salão cobrindo algo que crescia de volta de qualquer jeito. Deixar o cabelo mostrar o que era. O cinza mesclado com o que ainda restava do castanho. A textura levemente mais áspera dos fios novos. O corpo mostrando o que havia passado, sem apologias.
Definitivo era ela.
Vinte e dois anos. Ela fazia os cálculos do jeito que fazia os cálculos de um projeto longo — não em arrependimento porque o arrependimento era impreciso e inútil como especificação de material sem referência de fornecedor, mas em compreensão estrutural. O que foi construído valeu enquanto valia. O que foi demolido precisava ser demolido quando precisava. O espaço vazio que sobrava era o começo de alguma coisa que ela ainda não tinha planta para mostrar, e isso era — ela aprendia aos poucos, com resistência e depois com aceitação — tudo bem. O espaço vazio antes das paredes é fase de projeto. Não é fim de projeto.