LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
Bandeira Vermelha
Capítulo 2 — Oito da Manhã
O chuveiro ficou frio depois de seis minutos.
Mara deixou ficar. A água fria era útil — acordava o corpo, fechava os poros, e tinha a vantagem adicional de ser desconfortável o suficiente para exigir atenção presente. Nada de fuso horário, nada de corredor de hotel às cinco e quarenta e três, nada de cicatriz que ela tinha passado os dedos sem saber o que era. Nada de loção mentolada no pescoço de um homem cujo sobrenome ela não sabia. Presente. Água fria. Presente.
Ela ficou os seis minutos inteiros.
O problema com o frame profissional era que construí-lo exigia não deixar entrar nada que o frame não comportasse, e havia, naquele momento específico em que o chuveiro esfriou e ela decidiu ficar, uma quantidade não trivial de coisas que o frame não comportava. Ela havia treinado essa habilidade de compartimentação ao longo de anos — quatro anos numa agência, depois as negociações da Vega, onze meses de conversa sobre o cargo antes de assinar. Era uma habilidade real, não apenas aspiração. Funcionava na maioria dos contextos.
Este contexto era específico.
Ela tinha até as oito para construir o frame profissional e o frame profissional tinha que estar em ordem antes de entrar naquela sala. Era seu primeiro briefing como head of communications da Vega Racing. Onze meses de negociações, quatro entrevistas, um teste de três semanas como consultora externa antes da proposta formal — e agora ela estava aqui, Abu Dhabi, primeiro GP da temporada, e tinha dormido, no máximo, quatro horas.
O blazer cinza estava na cadeira. Ela o tinha comprado especificamente para o primeiro dia — não por vaidade, mas por função. O blazer cinza era uma peça de comunicação. Dizia: competente, não excessivamente formal, não tentando provar nada. Ela tinha pensado nisso enquanto comprava e tinha se sentido levemente ridícula por pensar nisso e tinha comprado de qualquer jeito porque era verdade. A peça certa no contexto certo era estratégia, não vaidade. Ela havia feito as pazes com isso.
Era o tipo de pensamento que ela tinha sobre roupas que ninguém sabia que ela tinha.
Às seis e cinquenta estava com o blazer, o cabelo preso — não tão preso que parecesse esforço, preso o suficiente para que não fosse complicação — e o protetor solar aplicado. O hábito automático, mais memória muscular do que decisão, seis anos de paddock treinando o gesto. Sentou na cama com o laptop e abriu a pasta do briefing.
Ela já tinha lido o briefing três vezes. A quarta leitura tinha a qualidade diferente de qualquer leitura além da terceira — não estava mais absorvendo informação nova, estava verificando que a informação que estava lá era a informação que ela havia absorvido. Era uma distinção que provavelmente só fazia sentido para ela. Fazia sentido.
Sabia: nome dos pilotos (dois), nome da diretora esportiva (Claudia Bernt, alemã, doze anos no paddock, sete na Vega, dois campeonatos de construtores como resultado), nome do engenheiro-chefe (Marcus Webb, britânico, construiu o carro atual em dezoito meses, reputação de meticuloso que era eufemismo de perfecionista, o que ela reconhecia como traço). Sabia os patrocinadores, os horários da temporada, as janelas de imprensa, as expectativas explícitas da Claudia e as implícitas que ela havia lido nas entrelinhas das quatro entrevistas.
Sabia os nomes dos pilotos: Tariq Al-Mansouri e Sebastian Reeve.
Ela tinha pesquisado Sebastian Reeve quando recebeu a proposta da Vega. Um campeonato mundial — o ano anterior, carro certo, momento certo, mas um campeonato é um campeonato e exige uma certa consistência de performance para chegar lá. Quatro anos na equipe, reputação de "difícil" que ela havia identificado rapidamente como reputação construída mais pela mídia do que por evidência concreta — ela sabia ler esse padrão, tinha gerenciado atletas antes, sabia distinguir entre piloto que é difícil e piloto que é preciso e que o paddock lê como difícil porque precisão inconforta quem prefere performers. Tinha visto as fotos de imprensa. Ombros largos, rosto que não era exatamente fotogênico mas que fotografava bem de qualquer jeito — havia uma assimetria específica nos traços que a câmera gostava. Cabelo escuro, quase preto sob o flash dos boxes. Um maxilar quadrado que os textos de imprensa sempre chamavam de "traços fortes" sem nunca dizer o que isso queria dizer. Nas fotos os olhos saíam num cinza claro que contrastava com o capacete preto, o tipo de contraste que fotógrafo de paddock gosta de explorar.
Ela fechou o laptop.
O processamento sobre o que tinha acontecido na noite anterior, ela havia decidido enquanto estava no chuveiro frio, ia ficar no chuveiro. Ficava no espaço de água fria e dezoito graus de ar condicionado e ombro descoberto e loção mentolada. Não ia entrar no briefing. A mente era capaz de fazer isso — de construir uma porta e deixar determinadas informações do lado de fora — se você fosse disciplinada o suficiente e ela havia construído a disciplina ao longo de anos.
O que ficou no chuveiro, para registro:
O corpo dela tinha acordado antes dela e tinha acordado sabendo. Havia aquela sensibilidade específica na parte interna das coxas, o tipo de coisa que não dói e que também não deixa esquecer, e uma marca de pressão no quadril esquerdo, do lado, onde a mão dele havia ficado apoiada tempo suficiente para deixar registro. Ela viu no espelho enquanto tirava a roupa. Ficou olhando três segundos a mais do que precisava.
Havia também uma marca no pescoço, abaixo da orelha, do lado esquerdo. Pequena. Nada que uma gola alta não resolvesse, e em Abu Dhabi gola alta era uma decisão que ia precisar de explicação, então ela usou corretivo e a blusa de colarinho mais fechado que tinha na mala.
Debaixo da água fria o corpo não colaborou em nada.
Foi essa a informação desagradável da manhã. Ela entrou no chuveiro com o objetivo administrativo explícito de encerrar o assunto, e o corpo, que não recebe memorando, ficou reproduzindo trechos em ordem aleatória: a boca dele na parte de dentro da coxa, e a demora ali, e o *então pede*. A mão prendendo a dela no colchão. O peso. O momento em que ele virou o ritmo e ela deixou.
Ela ficou com a testa encostada no azulejo por um tempo que não contou.
Não fez nada a respeito. Fechou a água, secou o cabelo e transferiu a coisa inteira para a categoria de eventos concluídos, que era uma categoria administrativa e não emocional, e que tinha funcionado bem para tudo que ela já havia colocado nela ao longo de onze anos.
Ia funcionar para isto também.
Era o que ela pensava às sete e vinte da manhã, o que em retrospecto ela classificaria como o erro de avaliação mais caro da carreira.
Havia uma única fissura no argumento e ela sabia onde estava: ela não sabia o sobrenome dele.
"Seb" era um nome, não era identificador completo. Era possível — improvável, o paddock de F1 não era grande — mas era possível que "Seb" fosse pessoa completamente sem sobreposição com a vida profissional que estava prestes a começar naquele mesmo hotel naquelas próximas horas.
Era a única suposição que o frame precisava manter para funcionar.
Ela foi até a janela.
O sol de Abu Dhabi estava subindo sobre a Yas Island com aquela qualidade de luz que é diferente de qualquer outro lugar — muito branca, quase sem sombra ainda nessa hora, como se a luz saísse de todos os ângulos ao mesmo tempo em vez de de um ponto específico. O circuito ficava ali mesmo; ela conseguia ver uma seção de gradezinha de segurança daqui de cima, e uma parte do pit lane que estava vazio mas que em dois dias ia ter vinte carros passando a trezentos e trinta quilômetros por hora. Em quarenta e oito horas ia ter um GP de Fórmula 1 acontecendo ali.
Isso era, objetivamente falando, a parte mais interessante do trabalho.
Ela tinha chegado à F1 por acidente de trajetória — quatro anos numa agência de comunicação esportiva em SP que tinha um contrato com patrocinador de F1, e ela havia sido jogada no briefing porque falava inglês bem e porque o colega que deveria ir havia cancelado na última hora com uma história que envolvia trânsito na Marginal que ela havia aceitado sem aprofundar. E então havia ficado. Não por paixão ao esporte — ou não só — mas porque o paddock era um organismo vivo e complexo e ela gostava de organismos vivos e complexos quando podia entender os padrões deles. E havia padrões na F1 que eram visíveis se você prestasse atenção suficiente: como as equipes se comunicavam sob pressão, como os pilotos gerenciavam narrativa pública, onde os dois sistemas colapsavam e criavam exatamente o tipo de problema que ela era boa em resolver.
Às sete e quarenta desceu.
A sala de briefing ficava no andar de convenções do hotel. Ela chegou às sete e cinquenta e sete, que era três minutos antes do início, que era o tempo que ela considerava adequado — cedo o suficiente para não parecer ansiosa, não tão cedo que ficasse esperando sozinha com a exposição que isso criava. Havia, em chegar três minutos antes, uma mensagem específica de alguém que respeita o tempo dos outros sem precisar demonstrar que chegou com antecedência.
A sala foi enchendo.
Marcus Webb ela reconheceu pela foto — alto, óculos com aro fino, carregava um tablet como extensão do braço com a naturalidade de quem há muito tempo não distingue entre a mão e o que a mão segura. Dois engenheiros de dados que ela não sabia os nomes ainda mas cujos crachás ia memorizar antes do almoço. Uma assistente de comunicação que Mara ia supervisionar — Priya, cujo currículo ela havia lido e que era impressionante para vinte e quatro anos sem ser o tipo de impressionante que intimidava a chefia imediata. Claudia Bernt entrou com a precisão pontual de alguém que havia vindo direto do simulador às cinco da manhã e ainda assim estava de blazer bem passado, como se a exaustão fosse irrelevante para a aparência e ela tivesse feito as pazes com isso décadas atrás.
— Mariana. — Claudia deu a mão, firme, o tipo de aperto que não dura mais do que o necessário porque mais do que o necessário é desperdício. — Boa vinda à equipe. Vamos começar logo que o Seb chegar.
O nome ficou no ar por um segundo.
Mara assentiu. Assentiu, abriu o laptop, arrumou os papéis que não precisavam ser arrumados, fez o que as pessoas fazem quando estão fingindo que estão ocupadas enquanto alguma coisa dentro delas está fazendo um cálculo rápido e silencioso sobre a probabilidade de uma coincidência específica ser coincidência.
Seb, havia no paddock. Seb, nome de piloto. Seb, abreviação de Sebastian.
Ela olhou para a tela sem ver nada.
A porta da sala se abriu.