LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
Acorde
Na quarta-feira à noite, com a mala semiaberta no chão do quarto e uma lista de coisas para fazer que ela ia ignorar metade, Nayara decidiu que precisava ouvir a banda antes de fotografá-la.
Era um princípio dela — não exatamente uma regra escrita, mas uma prática que tinha se solidificado ao longo dos anos em coberturas que deram certo e coberturas que deram certo por razões que ela só entendia depois. Você fotografa melhor o que conhece em algum nível. Não intimidade, não necessariamente — às vezes bastava entender o ritmo de alguém, a forma como ele ocupava o espaço, o que o fazia desacelerar ou acelerar num determinado momento. E música dizia isso de um jeito que entrevista nenhuma conseguia: como uma pessoa se move quando não está sendo observada, o que escolhe dizer quando não precisa escolher as palavras com cuidado, o que deixa escapar num refrão porque o refrão é onde a canção resolve o que a estrofe construiu.
Ela abriu o laptop na mesa, colocou o fone de ouvido — os intra-auriculares que usava para trabalho, não os grandes para prazer, porque isso era pesquisa, não lazer — e foi no Spotify.
A mala continuou aberta no chão como evidência de intenção não executada.
Setembro tinha três álbuns. Ela decidiu começar pelo segundo porque o segundo álbum era sempre o mais honesto — o primeiro ainda estava tentando se provar, carregando o peso de existir, de justificar a banda para um mundo que ainda não a conhecia; o terceiro já sabia que tinha chegado e às vezes se permitia confortabilidade que a urgência do segundo não tolerava. O segundo era onde a banda descobria se tinha algo a dizer ou se o primeiro tinha sido sorte. Era a radiografia do que realmente eram quando ninguém estava mais impressionado pelo fato de existirem.
*Estação*, o segundo álbum. Doze faixas.
Ela apertou play e voltou para a mala. Dobrou uma camiseta. Ouviu o começo — guitarra com textura boa, a entrada da bateria certa no tempo, sem exibicionismo, sem aquele impulso de mostrar que sabe o que está fazendo que tornava tanta coisa de rock nacional dos últimos anos tecnicamente correto e emocionalmente vazio. O tipo de arranjo que serve a música em vez de servir ao músico. Ela aprovou sem perceber que estava aprovando, o que era a melhor forma de aprovação — quando o julgamento acontece antes da decisão consciente de julgar.
A voz entrou na segunda estrofe.
Ela parou de dobrar a camiseta.
Não era o tipo de voz que chama atenção porque é grande. Era o tipo que chama atenção porque é exata — cada palavra no lugar que a palavra precisava estar, sem ornamentação, sem o vibrato de quem aprendeu a cantar ouvindo o próprio ego. Havia algo na articulação que era quase fotográfico: sem excesso de exposição, sem sub-exposição, o nível certo de contraste para que o que estava sendo dito ficasse visível sem precisar de amplificação artificial.
Ela tinha ouvido dezenas de vocalistas de rock ao longo dos anos, credenciada em fosso fotográfico, e sabia distinguir: havia os que cantavam para a plateia e os que cantavam para a música. Os primeiros eram mais fáceis de fotografar — gesticulavam, criavam momentos, faziam coisas que eram foto. Os segundos eram mais difíceis e as fotos eram melhores: você precisava esperar o segundo em que a música chegava neles de dentro para fora, quando a performance e a coisa real coincidiam. Esse cantava para a música.
Ela voltou a dobrar as camisetas.
Deixou o álbum correr até a sexta faixa, que era mais lenta, com um arranjo que abria espaço de uma forma que as faixas anteriores não abriam — como um quarto que você entra e percebe que é maior do que parecia pela porta. Deixou correr até a oitava, que tinha uma estrutura de arranjo que ela achou interessante sem conseguir nomear por quê — havia uma mudança de andamento no pré-refrão que não era o que você esperava e era exatamente o que a música precisava, o tipo de decisão que só faz sentido retroativamente. E então chegou na décima faixa.
Os primeiros quatro compassos eram só guitarra e voz.
*Acordei sem você* *e o dia era a mesma moldura vazia* *que eu tentei preencher* *com o nome que você não deixou.*
Nayara parou.
Não porque tinha reconhecido alguma coisa. Não era isso — não naquele momento, não naquela leitura. Era mais simples: era uma boa letra. A imagem era precisa, o tipo de precisão que vem de quem escreveu de dentro para fora em vez de tentar construir poesia. Poesia construída de fora para dentro tinha uma qualidade de andaime — você via a estrutura junto com o edifício. Isso não tinha andaime. Tinha a forma de coisa que chegou inteira.
*Moldura vazia.* Ela conhecia aquela sensação, não necessariamente naquele contexto específico de pessoa e ausência, mas como metáfora visual ela entendia fisicamente: o enquadramento sem sujeito, o espaço onde algo deveria estar e não está, a composição que existe como potencial não realizado. Ela havia tirado fotos assim — não de propósito, mas nos momentos em que o sujeito saiu do quadro antes do disparo, e o que ficava era o espaço formado em torno da ausência, que às vezes era mais eloquente do que a presença teria sido.
Ela ficou parada com a camiseta na mão por talvez dez segundos.
Depois colocou a camiseta na mala e não parou mais.
A música continuou — entrou a guitarra, entrou o baixo, a bateria discreta como quem sabe que certas músicas não precisam de percussão que afirme, só de percussão que sustente, e a voz ficou sobre tudo sem competir com nada. Era a faixa mais quieta do álbum, sonicamente, e provavelmente a mais densa emocionalmente. Ela terminaria de ouvir e seguiria para a faixa seguinte sem marcar, sem destacar. Era o tipo de música que ficava no sistema operacional sem que você pusesse etiqueta nela — não no playlist de favoritos, não num reel, não numa indicação, apenas no fundo do processamento de tudo que vinha depois.
*Acorde*. O título aparecia na tela quando ela olhou.
Ela terminou o álbum. Foi para o terceiro, ouviu três faixas, confirmou que o segundo era o melhor — não porque o terceiro fosse ruim, mas porque havia uma qualidade de urgência no *Estação* que o sucesso do terceiro não precisava mais manter. Fechou o laptop às vinte e três horas com a sensação de dever cumprido e uma leve estranheza que ela não catalogou de forma consciente.
A mala estava mais ou menos arrumada. Ela ia desmontar e remontar de manhã porque era assim que funcionava — primeiro tentativa para descobrir o problema, segunda tentativa para resolver o problema com metodologia, terceira tentativa quando era inevitável.
Ela foi até a cozinha tomar água, ficou de pé encostada na pia por um momento, olhando para o apartamento. A Leica estava na mesa, ao lado do laptop fechado. A luz da rua entrava pela janela da sala num ângulo que criava uma sombra comprida da câmera na madeira da mesa — uma forma geométrica precisa, a silhueta do instrumento projetada em escala menor, como se a rua estivesse tentando duplicar o que ficava dentro.
Ela considerou fotografar por dois segundos.
Não fotografou.
Algumas imagens você deixa existir sem documentar. Essa era uma habilidade que ela tinha levado anos para desenvolver e que o pai entendia intuitivamente desde sempre — ele nunca tinha fotografado mais do que o necessário para registrar o que precisava existir além do momento, e o restante ele deixava acontecer sem testemunho. Ela havia demorado a entender que fotografar tudo era uma forma de não estar em nada.
Ela voltou para o quarto, apagou a luz, ficou olhando para o teto.
Setembro. Turnê europeia. Seis semanas.
A voz da décima faixa não voltou para ela de forma consciente. Era mais como um resíduo de som — o tipo que fica nos canais auditivos sem virar pensamento articulado, como a frequência que continua depois que a nota acabou. *Moldura vazia*. O enquadramento sem sujeito. Ela dormiu sem associar isso a nada em particular, ou pelo menos assim ela registrou no momento de adormecer, que era o momento em que a mente ainda tinha controle sobre o que admitia como significativo.
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Na manhã seguinte ela acordou às sete, foi ao mercado pegar pão e queijo — a padaria na esquina que tinha aquele perfume de manhã de forno que era o único cheiro no Pinheiros que ela não conseguia fotografar de forma que fizesse justiça, porque olfato não fotografava — voltou, comeu em pé na cozinha enquanto olhava a rua lá embaixo.
Pinheiros numa manhã de quarta tinha o ritmo específico do bairro que trabalha mas não corre — diferente da Paulista, onde toda manhã tinha a urgência de quem está provando alguma coisa para o relógio. As pessoas que passavam na calçada debaixo tinham um propósito mas não urgência, o tipo de caminhada de quem sabe para onde vai e não está em pânico sobre chegar. Ela tinha crescido em Santo André, bairro do ABC, outra textura completamente — mais concreto, mais barulho, menos arte no cardápio dos restaurantes e mais comida de verdade, a cidade de pessoas que faziam coisas com as mãos. Tinha vindo para SP com vinte e dois anos, para a faculdade, e ficado porque Pinheiros tinha luz boa e não exigia que você se justificasse.
Ela tinha morado em três apartamentos no bairro. O atual era o menor dos três mas tinha a melhor janela — orientação leste, a luz da manhã entrava limpa antes que os prédios da rua paralela bloqueassem.
O telefone tocou. Sofia.
— Quando você vai me contar que vai sumir por seis semanas? — Sofia disse no lugar de oi.
— Oi, Sofia.
— Oi. Seis semanas, Nayara. Eu soube pelo Bruno, que não deveria ter me contado mas contou porque eu fiz uma pergunta indireta sobre a agenda dele e ele é péssimo com indiretas.
— Você namora com ele ou fica monitorando a agenda dele?
— As duas coisas são mutuamente exclusivas? — pausa com a qualidade de Sofia guardando o argumento para depois. — Mas qual banda?
— Setembro.
Silêncio de dois segundos que, em Sofia, era o equivalente a um discurso preparado que ela estava decidindo se entregava agora ou depois.
— Setembro. — Ela disse de um jeito que não era pergunta.
— Você conhece?
— Todo mundo conhece o Setembro, Nayara. É uma das bandas mais — você está me dizendo que você não sabia quem era quando aceitou?
— Aceitei pelo cachê.
— Deus. — Ruído de Sofia se movendo, provavelmente indo para a janela porque era o que ela fazia quando precisava processar informação. — Tudo bem. Então você sabe agora. Como você está?
— Trabalhando. Arrumando mala.
— Isso não foi o que eu perguntei.
— Sofia.
— Nayara. — A voz de Sofia mudou para o tom que ela usava quando estava sendo séria de verdade, que acontecia menos do que ela deixava parecer e mais do que Nayara costumava querer. — Eu sei que foi há três anos. Eu sei que você vai me dizer que foi uma noite e que não significa nada. Mas eu também sei você. E você não some por seis semanas com alguém que é zero.
Nayara ficou parada perto da janela por um segundo, o vidro devolvendo um reflexo fraco de si mesma por cima da rua lá embaixo — o cabelo cacheado curto que nunca ficava exatamente onde ela mandava, mesmo recém-lavado. Não se deteve nisso. Olhou através de si mesma para a rua.
Uma mulher passava com um cachorro pequeno e um café na mão, com a expressão de quem tinha resolvido a maioria dos problemas do dia antes das oito. O cachorro cheirava cada janção de calçada com a dedicação de pesquisador em campo. Ela enquadrou mentalmente — a mulher em movimento, o cachorro parado, a tensão da guia entre eles como linha de composição.
— É trabalho — Nayara disse.
— Você diz isso de tudo que importa.
— Não é verdade.
— Nayara.
— Sofia. — Ela disse o nome com o peso de *encerra aqui*, a firmeza específica que funcionava com Sofia porque Sofia entendia o que significava e respeitava sem concordar. — Eu pesquisei a banda, ouvi os álbuns, vou estar preparada. É uma cobertura documental, que é o que sei fazer. O resto é narrativa que você está construindo sem material.
Pausa do lado de Sofia. Longa o suficiente para comunicar que ela discordava e estava escolhendo não brigar hoje.
— Tá. — Um sorriso na voz agora, a versão de Sofia que sabia quando guardar o argumento para o momento em que seria mais eficaz. — Me manda foto dos canais de Hamburgo. E do baterista.
— Do baterista?
— O Duda. Olha as fotos. Tem um ombro ali que —
— Adeus, Sofia.
— Cuida das câmeras!
Ela desligou.
Foi até a mesa, abriu o laptop, voltou para as imagens da banda porque agora tinha uma razão técnica legítima: precisava identificar os ângulos favoráveis de cada integrante antes de chegar no primeiro ensaio. Era preparação profissional. Não era nenhuma outra coisa, e ela não ia deixar a Sofia tornar isso outra coisa dentro da sua própria cabeça.
O baterista — Duda, segundo a página da banda — tinha aquela imobilidade de bateristas experientes entre um hit e outro: os braços podiam estar em qualquer coisa, mas o rosto ficava quieto. Boa para foto. Camila, a baixista, perfil direito claramente melhor — havia algo na geometria da mandíbula direita que a câmera ia gostar mais. Rafa, o guitarrista, era o tipo que não ficava parado o suficiente para um enquadramento limpo — ia ser trabalho, mas o resultado seria mais vivo, mais urgente.
E então a foto do vocalista.
Era uma foto de show, fosso fotográfico, luz de palco laranja vinda de baixo — o tipo de iluminação que faz todo mundo parecer mais dramático do que é, mas nesse caso a dramaticidade parecia ganha, não fabricada. Alto, magro o bastante para a roupa de palco sobrar um pouco no corpo, o cabelo escuro caindo na testa com a inclinação da cabeça para o microfone, olhos fechados ou quase. As mãos no pedestal com aquela leveza de quem não está segurando mas descansando — na esquerda, uma linha fina de tatuagem subindo do pulso, apagada pela distância e pelo grão da imagem. Não estava posando. Estava cantando.
Era uma boa foto. Não porque ele era bonito — embora fosse — mas porque o fotógrafo tinha pego o momento exato entre a performance e a coisa real, e às vezes esses dois são a mesma coisa em pessoas que fazem isso direito, que é quando as fotos mais difíceis se tornam as mais fáceis: basta estar lá e esperar.
Nayara fechou o laptop.
Levantou a Leica, apontou para a janela, ajustou o foco para a rua lá embaixo. Enquadrou a mulher com o cachorro — ela ainda estava lá, parada num ponto esperando o sinal para atravessar, o café na mão agora na metade. O cachorro olhava para cima com aquela atenção total de animais que ainda não aprenderam a fingir desinteresse pelo que está na frente deles.
Ela clicou.
Depois abaixou a câmera.
Setembro. O vocalista. Theo Alves, segundo a página da banda.
Certo.
Ela tinha um voo na quinta de manhã e uma mala para montar direito. Era o que importava agora.