LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
Acesso Negado
Capítulo 2: Protocolo
*Grupo Almeida, 22º andar — segunda-feira, 9h52*
*Laura*
A sala de espera tinha duas poltronas e uma mesa de centro com uma bandeja de café que ninguém havia tocado. Laura sentou-se com o tablet apoiado no joelho e releu os slides pela décima vez desde que havia saído do escritório da Nuvem Lógica às sete e meia. Não porque precisasse — ela sabia a apresentação de memória, o que era literalmente verdade, porque havia apresentado variações dela para quatro investidores e dois processos enterprise nos últimos seis meses — mas porque reler mantinha a mente no ângulo correto.
Fernanda havia querido vir. Laura havia dito não.
— Você prefere ir com Lucas e a Débora — havia dito Fernanda na tarde de sexta, com o tom de quem estava declarando uma observação, não fazendo uma pergunta.
— Eles conhecem o produto melhor para essa vertical. — Laura havia fechado o laptop antes de continuar a conversa. — Industrial não é varejo. Preciso de alguém que já tocou implementação em manufatura.
Fernanda havia ficado quieta por três segundos. Era o silêncio dela quando sabia que havia outra camada no raciocínio e estava decidindo se queria puxar o fio.
— Caio vai estar lá?
— Não sei. — Pausa. — Provavelmente.
— E você prefere que eu não veja como você age quando ele está na sala.
Não era uma pergunta, então Laura não havia respondido como se fosse.
Agora ela estava na sala de espera do vigésimo segundo andar com Lucas e Débora, e Caio Menezes estava em alguma sala idêntica a essa em algum corredor adjacente, e tudo que ela precisava era de quarenta e cinco minutos para fazer o comitê do Grupo Almeida entender por que a Nuvem Lógica era a escolha certa. O resto era ruído.
— A Mariana Luz entrou para o processo tarde — disse Lucas, sem levantar os olhos do notebook. — Os e-mails iniciais eram todos com o diretor financeiro.
— Ela entrou quando o escopo mudou de regional para nacional. — Laura virou a página no tablet. — Quando ficou grande demais para ser decisão de custo, virou decisão de arquitetura. Foi aí que chamaram ela.
— É um sinal bom ou ruim para nós?
— É neutro. Depende se ela prefere construir ou comprar. — Laura olhou para a porta. — Se ela for do tipo que quer controle sobre stack, vai questionar integração. Prepara os slides de arquitetura para responder antes de ela perguntar.
Lucas abriu uma pasta no notebook. Débora, que havia ficado quieta desde o lobby, ajustou a posição na cadeira.
— Você viu quem estava lá embaixo — disse Débora.
Não era uma pergunta.
— Vi. — Laura não levantou os olhos do tablet. — Muda alguma coisa na nossa apresentação?
Silêncio.
— Não — disse Débora, depois de um momento.
— Então. — Laura virou mais uma página.
O que ela não disse: havia calculado a probabilidade de a Dataform estar naquele processo há três semanas. Havia pedido para Fernanda mapear todos os processos enterprise abertos em conglomerados industriais acima de quinhentos funcionários no estado de São Paulo e havia identificado o Grupo Almeida como o de maior ticket e maior probabilidade de overlap. Havia preparado a apresentação sabendo que poderia estar competindo diretamente com Caio Menezes. Havia decidido que isso era irrelevante para a qualidade do produto.
O que ela não disse para Lucas e Débora: havia visto a expressão dele no lobby — aquele segundo e meio de ajuste — e havia arquivado a informação com a neutralidade com que arquivava todas as informações sobre ele desde que havia recebido, oito meses antes, uma mensagem de um contato do ecossistema que mencionava, sem perceber o peso do que estava dizendo, o nome de Roberto Salgado e o ultimatum do Series A da Dataform.
Ela havia ficado sentada no escritório por quarenta minutos depois de ler aquela mensagem. Havia saído para andar pelo corredor de serviço do prédio onde ficava a Nuvem Lógica. Havia voltado. Havia aberto o modelo financeiro que estava construindo para o quarter seguinte e havia trabalhado até as onze da noite.
Havia demorado dois dias para contar para Fernanda.
A porta da sala de espera se abriu. Uma mulher de uns quarenta anos, cabelo curto, paletó sem gravata, entrou com a postura de alguém que não tinha tempo para preâmbulos sociais que não servissem a um objetivo.
— Laura Vasconcelos? — A mulher olhou diretamente para ela, ignorando educadamente Lucas e Débora. — Sou Mariana Luz. Chefe de tecnologia do Grupo Almeida.
Laura levantou-se. A handshake de Mariana era firme, seca, rápida.
— Boa tarde. — Laura. — Esses são Lucas Teles, que liderou as nossas implementações industriais, e Débora Faria, arquiteta de soluções.
Mariana cumprimentou os dois com a eficiência de quem estava confirmando presença, não fazendo conexão social.
— Vamos para a sala de apresentação. O comitê está pronto. — Mariana se virou para a porta e Laura reconheceu o tipo: uma engenheira que havia aprendido que o melhor uso do tempo corporativo era eliminar tudo que não era o ponto. — Tenho algumas perguntas antes de começarmos formalmente, se não se importa.
— Pode perguntar.
— Quantas implementações a Nuvem Lógica tem ativas em operações industriais com mais de três plantas?
— Sete contratos ativos. Duas implementações completas, cinco em fase de rollout. Posso detalhar verticais e volume de dados processado, se preferir.
Mariana não sorriu, mas houve algo no ajuste da expressão que Laura interpretou como aprovação da densidade da resposta.
— Prefiro. — Ela abriu a porta do corredor. — Na sala.
Enquanto seguiam pelo corredor, Laura passou por uma porta de vidro que dava para outro corredor. Do outro lado, Caio Menezes caminhava na direção oposta com Pedro Mota ao lado. Ela viu o perfil dele — ele não olhou para o corredor, estava falando com Pedro, o rosto concentrado no que estava dizendo.
Ela continuou andando.
A sala de apresentação era grande, janelas do chão ao teto com vista para a Faria Lima. Mesa de conferência para doze, metade ocupada — o CFO que ela havia estudado, dois diretores regionais que ela reconhecia das fotos do LinkedIn, uma assessora que provavelmente tomaria ata.
Não havia câmeras. Isso era relevante.
Laura colocou o adaptador no notebook de Lucas, verificou a projeção, ajustou a distância do microfone da mesa com dois movimentos precisos. Depois se sentou.
— Quando quiserem. — Ela olhou para o comitê. — Prefiro perguntas durante, não no final.
O CFO levantou uma sobrancelha. A assessora parou de escrever por um segundo.
Mariana Luz, sentada à cabeceira, fez um gesto leve com a mão.
— Pode começar.