LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
A Heresia de Bologna
O segundo dia começou com neblina e continuou com ela.
Élise chegou ao Palazzo Poggi às 8h45, quinze minutos antes do horário combinado, e subiu a escada secundária do canto nordeste do pátio com a familiaridade de quem já sabe onde os degraus têm saliências. Dois dias eram suficientes para isso. Ela tinha a memória corporal de quem passa a vida em prédios desconhecidos.
Benedetta já estava lá.
Isso a surpreendeu levemente — ela havia calculado que a assistente do arquivo chegaria às 9h em ponto, dado o padrão do dia anterior. Mas Benedetta Costa estava de costas para a porta, manuseando documentos de uma caixa, com uma concentração que não era de pessoa que acabava de chegar.
"Você dormiu aqui?" Élise perguntou.
Benedetta se virou. Não pareceu surpresa com a pergunta — apenas avaliou se era humor ou investigação, e optou por humor.
"O sistema de climatização deu outro problema às 22h. Tive que vir pessoalmente verificar. O protocolo de conservação exige que a umidade não ultrapasse—"
"55%," Élise disse. "Você me disse ontem."
"Exatamente." Uma pausa. "O técnico vem na quinta."
Benedetta voltou para os documentos. Élise colocou a bolsa na mesa de ontem — havia decidido que aquela seria a sua mesa pelas seis semanas, posição estratégica entre a entrada e as estantes do fundo — e abriu o laptop.
O sol de outubro entrava pelas janelas do salão em ângulo baixo, criando uma qualidade de luz que os afrescos do teto pareciam ter sido planejados para receber: as figuras alegóricas ficavam mais vívidas às 9h da manhã do que às 16h sob a fluorescente. O Direito com os olhos vendados tinha, naquela luz, uma expressão menos irônica e mais cansada.
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Luca chegou às 9h17.
Élise o havia conhecido brevemente durante o processo de preparação — uma videochamada de quarenta minutos em setembro, onde ele havia explicado o estado da coleção com um entusiasmo que ela havia achado ligeiramente excessivo para o contexto de manuscritos de exegese jurídica do século XIII. Mas entusiasmo em doutorando era um bom sinal, geralmente. O problema eram os que chegavam sem ele.
Em pessoa, Luca Bernardini tinha o mesmo entusiasmo transposto para o físico: entrou pela porta com a energia de alguém que havia encontrado um estacionamento improvável, desfazendo o cachecol com uma mão enquanto segurava o café com a outra.
"Professora Marchand — ótimo, você já está aqui. Olha, eu estava revisando a correspondência do século XIII na noite passada e acho que o lote 3 tem uma sobreposição com o fundo Bentivoglio que pode—"
"Bom dia, Luca," ela disse.
Ele parou. Tinha vinte e seis anos e a capacidade de ser interrompido que vem de ter sido o aluno mais inteligente da sala por tempo suficiente para esquecer que interrupções têm função.
"Bom dia," disse ele, com mais calma. "Eu estava dizendo—"
"Sobre o fundo Bentivoglio." Ela já havia lido a mesma nota nas fichas de inventário. "Vamos checar depois de estabelecermos o protocolo de hoje. O lote 4 precisa de revisão completa antes de avançarmos."
Luca sentou-se na mesa ao lado, abriu o laptop e começou a digitar com a velocidade de alguém que pensa em paralelo. Benedetta trouxe as caixas do lote 4 do depósito climatizado — cinco itens, pergaminhos do século XIII em estado razoável — e eles estabeleceram o ritmo de trabalho: Élise examinava, ditava observações, Luca registrava no sistema e complementava com o contexto histórico que ele conhecia melhor do que ela, e Benedetta verificava contra o inventário original.
Funcionou. Esse era o tipo de trabalho para o qual Élise tinha paciência ilimitada: metódico, preciso, com regras claras sobre o que contava como evidência.
Às 11h, eles haviam processado os cinco itens do lote 4.
"Lote 5," disse Benedetta, indo buscar a próxima caixa.
Élise aproveitou a pausa para revisar as notas do dia anterior. Chegou à última linha: *Lote 7, item 6. Manuscrito aparentemente s. XIV. Deslocado. Verificar proveniência.*
"Luca," ela disse, sem levantar os olhos do caderno. "Você catalogou o lote 7 antes da minha chegada?"
"Parcialmente." Ele digitou algo. "Fiz os primeiros cinco itens. O sexto estava em estado um pouco diferente dos outros — couro mais espesso, tamanho diferente. Deixei para revisar com você."
"Você notou a discrepância de período?"
Uma pausa. "Notei que o suporte era diferente. Não analisei o texto em detalhe."
Ela levantou os olhos. Luca estava olhando para a tela, mas com uma qualidade de atenção que não era totalmente direcionada ao que estava vendo. A pergunta havia criado algo nele — ela não saberia dizer o quê, exatamente. Uma tensão pequena. Uma hesitação.
"Vamos chegar lá," ela disse.
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O lote 5 tinha sete itens. O lote 6 tinha quatro. Eles trabalharam até o meio-dia, pararam quarenta minutos para almoço — Élise foi a um bar sob os portici da Via Zamboni e pediu um tortellino in brodo que era exatamente o que deveria ser, simples e quente —, e voltaram para o lote 7 às 13h10.
Os cinco primeiros itens do lote 7 foram processados rapidamente: pergaminhos do século XIII, condição boa, em linha com o resto do fundo Aldrovandi.
Benedetta tirou o sexto item da caixa e colocou na mesa de Élise.
O manuscrito de couro marrom escuro. Formato de quarteto. A encadernação mais espessa que qualquer outro item da coleção.
"Então," disse Luca. Havia uma qualidade diferente na voz — não o entusiasmo de antes, algo mais contido. "O misterioso número seis."
Élise colocou as luvas nitrílicas e pegou o manuscrito com cuidado. O couro estava seco mas íntegro. O lombo mostrava desgaste de uso, não de descuido — o tipo de desgaste que vem de muitas mãos ao longo de muito tempo. Ela virou para o verso: sem ficha de inventário original, apenas a etiqueta moderna que Benedetta havia colocado como item não catalogado.
Abriu com cuidado a capa.
A primeira página tinha uma iluminura pequena no canto superior esquerdo — a tinta havia desbotado para um ocre-pálido, mas a forma era distinguível: um círculo com raios, ou talvez uma roda. Abaixo da iluminura, o título em letras capitais:
*DE REBUS CICERONIS COMMENTARIUS*
E abaixo, em letra menor: *Compilatum anno Domini MCCCXLVII.*
1347. Século XIV, como ela havia estimado. Um comentário sobre obras de Cícero, compilado em 1347.
"Latim," disse Luca, que havia se aproximado e estava lendo por cima do ombro dela com uma proximidade que era um pouco mais do que a necessidade profissional exigia. Ela não comentou.
"Latim," confirmou ela. "Escrita cursiva gótica italiana. Data autoatribuída de 1347." Ela virou as páginas com cuidado — o pergaminho estava em condição surpreendentemente boa para a data, o que sugeria armazenamento cuidadoso ao longo dos séculos. O texto era denso, margens estreitas, com glosas marginais em mão diferente da do texto principal. "Isso não é do século XIII. Está completamente fora do escopo do fundo Aldrovandi."
"Pode ter sido adquirido junto com o fundo em algum ponto," disse Benedetta. "Acontece quando coleções são compradas em lote. Nem sempre o que vai junto tem relação com o que foi pedido."
"Quando o fundo Aldrovandi foi incorporado ao arquivo?"
Benedetta foi verificar o registro. Voltou: "1923. Após a morte do último herdeiro direto da família."
"Então pode ter estado aqui por um século sem que ninguém notasse que estava fora de lugar." Élise fechou o manuscrito com cuidado. "Preciso catalogar isso separadamente. A proveniência vai exigir pesquisa adicional — manuscritos do século XIV sobre Cícero não são raros, mas este tem características específicas que merecem investigação."
Ela abriu uma nova ficha no sistema e começou a digitar.
*Manuscrito s. XIV (data autoatribuída: 1347). Título: De Rebus Ciceronis Commentarius. Latim. Encadernação em couro, formato quarteto. Estado de conservação: bom. Proveniência: fundo Aldrovandi (incorporado 1923); relação com fundo incerta. Glosas marginais em mão secundária. Item requer análise filológica aprofundada e pesquisa de proveniência.*
Ela estava digitando o último parágrafo quando percebeu que Luca havia ficado em silêncio.
Ele estava de pé ao lado da estante, o manuscrito fechado na mão enluvada, olhando para a capa. Não para o texto. Para a capa de couro.
"Luca," ela disse.
Ele levantou os olhos. A expressão era difícil de ler — ela era boa em ler expressões, mas havia um filtro ali, uma camada adicional de controle que não era comum em alguém de vinte e seis anos.
"Desculpe," disse ele. "Estava pensando na glosa marginal. A mão secundária pode ser mais tardia — século XV talvez."
Era uma observação plausível. Era também, ela notou, uma observação que ele havia feito olhando para a capa, não para as páginas internas.
Ela retomou a digitação. Benedetta voltou ao sistema de catalogação. Luca recolocou o manuscrito na caixa e foi para sua mesa.
Eles trabalharam mais uma hora. Às 15h, Luca disse que tinha um compromisso no departamento e foi embora — mais abruptamente do que era natural, sem o ritual do cachecol que havia acompanhado a chegada. Benedetta não comentou. Élise também não.
Ela ficou mais trinta minutos, completando as fichas do dia. Quando guardou o laptop e colocou o manuscrito do século XIV de volta na caixa — de onde seria retirado amanhã para análise mais detalhada — ela parou por um momento.
Havia algo na forma como Luca havia olhado para aquele manuscrito.
Não era a curiosidade de um doutorando diante de um item interessante. Era mais antigo do que isso. Mais quieto.
Ela fechou a caixa e foi embora.