LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
A Desconhecida
Na segunda-feira, Júlia chegou cinco minutos antes das sete.
Não porque fosse ansiosa — ou pelo menos não pelo motivo que as pessoas normalmente ficam ansiosas no primeiro dia de emprego. Era cálculo: chegar adiantada dava margem. Se algo desse errado no caminho, se o ônibus atrasasse, se ela tomasse a direção errada no último quarteirão, ela ainda teria chegado no horário. Ela não podia depender de sorte. Sorte era para quem tinha reserva.
A mesma moça que abrira o portão na entrevista — Ana, ela descobriria o nome mais tarde — a recebeu com um aceno discreto e conduziu até a cozinha de serviço, que ficava num corredor lateral que Júlia não tinha visto na primeira visita.
A cozinha de serviço era grande e limpa e funcional. Tinha uma mesa comprida de madeira simples, diferente das superfícies envernizadas que Júlia tinha visto nos outros cômodos. Tinha um fogão industrial, armários brancos, uma geladeira de dois andares. Cheirava a café recém-passado.
Uma mulher de aproximadamente quarenta anos estava sentada à mesa com uma xícara. Ela levantou os olhos quando Júlia entrou, avaliou, e voltou para a xícara.
— Marisol — disse Ana. — A cozinheira. E eu sou Ana, a governanta.
— Júlia. Prazer.
Marisol acenou com a cabeça sem tirar os olhos da xícara. Não era hostilidade, Júlia percebeu. Era o tipo de neutralidade profissional que vem de anos servindo famílias que não pedem sua opinião sobre as novas contratações.
Ana mostrou onde ficavam as coisas: a prateleira designada para os pertences de Júlia na despensa, o gancho com uma chave reserva para o quarto dela, o mural de recados com a rotina semanal. Tinha um papel impresso, plastificado, com o horário de Bento dia a dia.
— A Dona Sílvia fez isso antes de ontem — disse Ana, com um tom que não dizia mais do que as palavras. — Ela gosta de rotina.
Júlia estudou o papel. Segunda a sexta, escola das oito ao meio-dia. Júlia busca ao meio-dia. Almoço na cozinha de serviço. Tarde livre com atividades aprovadas. Jantar às seis e meia. Banho e histórias às sete e meia. Luzes apagadas às oito.
— Alguma alergia, alguma restrição? — perguntou Júlia.
— Bento não pode comer amendoim. Já teve reação leve, então é precaução. Fora isso, ele come bem — quando quer. Às vezes recusa o prato só para testar.
— Seis anos — disse Júlia. — Normal.
Pela primeira vez, Ana esboçou algo próximo de um sorriso.
O quarto de Júlia ficava nos fundos do terreno, em um anexo separado da casa principal. Era pequeno: uma cama de solteiro, um guarda-roupa estreito, uma janela que dava para o muro lateral. Mas era limpo, tinha tomadas funcionando, e o colchão não afundava. Havia um banheiro compartilhado com mais uma funcionária — Patrícia, a diarista que vinha três vezes por semana.
Júlia desdobrou a mochila, guardou suas coisas com cuidado nos espaços que a gaveta e a prateleira ofereciam, e ficou um momento olhando pela janela. O muro era de tijolos cobertos de reboco branco, alto demais para ver a rua. Acima dele, a copa de uma árvore que ela não identificou.
Estava dentro agora. Era diferente de ter estado aqui na entrevista.
Na entrevista, ela era candidata. Agora era funcionária. A distinção importava.
Às sete e quarenta, foi buscar Bento para o café da manhã.
O menino já estava acordado — ela ouviu o barulho de um programa de televisão enquanto subia a escada, o corredor do primeiro andar com carpete escuro e quadros que ela não tinha tempo de olhar agora. O quarto de Bento tinha a porta entreaberta. Ela bateu duas vezes antes de entrar.
Era um quarto de visita adaptado, ela percebeu. Tinha brinquedos novos demais, como se tivessem sido comprados para a ocasião, e uma decoração que não era exatamente de criança — os móveis eram adultos, havia um trabalho de pintura na parede de árvore e animais que devia ter custado caro, mas o quarto não tinha aquela bagunça orgânica de onde uma criança realmente vive. Não tinha a marca pessoal de Bento. Era o quarto de um neto que visita, não de um neto que mora.
Bento estava sentado na cama com o tablet, assistindo a algo com dinossauros.
— Bom dia, Bento.
— Bom dia. — Ele não tirou os olhos da tela.
— Café da manhã.
— Não tô com fome.
— Você pode comer enquanto termina o episódio?
Ele considerou. — Posso.
Júlia esperou enquanto ele colocava o tablet de lado, colocava os chinelos, e descia a escada na frente dela. Ele sabia o caminho — já estava acostumado o suficiente com a casa para não precisar de guia.
Na cozinha, Marisol tinha deixado pão de forma tostado, frutas cortadas e um copo de leite. Bento sentou, olhou para o prato, e disse:
— Eu não gosto de mamão.
— Pode deixar de lado — disse Júlia. — Come o que você gosta.
— A outra falava que eu precisava comer tudo.
— Qual outra?
— A babá anterior. — Ele fez uma pausa. — Ela durou só duas semanas.
Júlia não perguntou por quê. Não ainda.
Ela ficou de pé enquanto ele comia, olhando o espaço. A cozinha de serviço tinha uma porta de vidro que dava para o quintal lateral, menor que o jardim da frente, com uma mesa de ferro e duas cadeiras. Havia uma bicicleta encostada na parede.
— Essa bicicleta é sua? — perguntou Júlia.
— Era do Theo quando era pequeno. — Bento mordeu a torrada. — Ele me deu. Mas eu ainda não sei andar direito.
— A gente pode treinar essa semana, se você quiser.
Bento ergueu os olhos. — A Tia Sílvia vai deixar?
— A gente pode perguntar a ela.
O menino voltou para a torrada com um ar de quem já sabia a resposta mas não queria dizer.
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Às dez da manhã, Sílvia convocou Júlia para o escritório.
O escritório ficava no segundo andar, o último cômodo do corredor. A porta estava aberta. Era uma sala pequena comparada ao resto da casa — uma escrivaninha, duas poltronas, estantes com livros que pareciam ter sido comprados por metro. Sílvia estava de pé quando Júlia entrou, com um tablet na mão.
— Sente-se.
Júlia sentou.
— Vou ser direta — disse Sílvia. — Você não é a primeira pessoa que contratamos para cuidar do Bento. As anteriores não funcionaram por razões variadas. Espero que você seja diferente, mas não tenho razão para assumir isso antes que prove.
— Entendo.
— Há algumas adições às regras que mencionei na entrevista. — Ela posicionou o tablet na mesa, com uma lista. — Você não discute decisões da casa na frente do Bento. Você não faz promessas ao Bento que não tenha autorização para cumprir. Você não entra nos quartos do andar de cima a não ser o de Bento e o corredor. Você não atende telefonemas pessoais durante o horário com ele, apenas em intervalos.
— Razoável.
— Visitas pessoais não são permitidas nas dependências.
— Não tenho visitas.
Sílvia olhou para ela por um momento. — Muito bem. Tem perguntas?
— Tenho uma. — Júlia endireitou a postura. — O Bento mencionou uma bicicleta. Perguntou se poderia praticar no quintal. A senhora autoriza?
Sílvia pousou o tablet. Era uma pausa pequena, mas havia algo nela.
— Onde você viu a bicicleta?
— No quintal lateral.
— Fui eu quem mandou guardar ali. — Uma pausa. — Pode usar o quintal. Não o jardim da frente.
— Certo.
— Mais alguma coisa?
Júlia se levantou. — Não. Obrigada.
Ela caminhou até a porta. Antes de sair, Sílvia disse:
— Júlia.
Ela parou sem se virar inteiro, apenas o suficiente para mostrar que ouvia.
— O Bento pode parecer fácil de conquistar. Não se engane. A estabilidade que ele precisa não vem de ser agradável com ele. Vem de ser consistente.
Júlia olhou para a mulher. Havia algo naquilo que não era conselho. Era aviso.
— Agradeço a observação — disse ela.
E foi embora pelo corredor.
No quarto nos fundos, naquela noite, ela ficou deitada de olhos abertos por um tempo antes de dormir. O silêncio da mansão era um tipo de silêncio diferente do Capão. Lá, o silêncio sempre tinha alguma coisa embaixo — um carro, uma conversa de janela, um cachorro. Aqui era densa, aquela ausência de som, como se a casa tivesse paredes grossas demais para deixar o mundo entrar.
Ela precisava ficar. Precisava aguentar.
Dez minutos depois, dormiu.