LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 1
Fora de Compasso
Eram seis nomes.
Lívia leu o primeiro, depois o segundo, chegou ao terceiro e parou.
Maximilian Brenner — Europäische Musikzeitung — Jurado Principal
Ficou olhando para o nome por um tempo que seria difícil de justificar se alguém estivesse observando. Depois pegou a caneta e circulou o nome.
Em setembro de 2023, aquele homem havia escrito, em meia coluna, que a técnica de Lívia Andrade era impecável e que técnica impecável sem alma não era arte, era acrobacia glorificada. Dois convites de festival recusados depois, a palavra "promissora" tinha sumido dos textos sobre ela. No lugar, aparecia "técnica". Sempre "técnica".
Ela havia guardado o recorte. Não estava certa de por quê. Talvez porque destruir algo exige primeiro que você o conheça bem.
E agora ele ia julgar cada nota que ela tocasse nas próximas três semanas.
Lívia largou a folha sobre a escrivaninha do quarto 214 do Hotel Sternberg, a três quarteirões do Musikverein, e olhou pela janela para a rua de paralelepípedos como se Viena tivesse armado aquilo de propósito. Tinha chegado havia menos de uma hora. Vinte e um dias de festival pela frente: câmara na primeira semana, recital solo na segunda, gala com orquestra na terceira. Para o recital, havia preparado o Sibelius, a escolha mais óbvia e a mais perigosa, porque todos sabiam como o Sibelius deveria soar e qualquer desvio seria chamado de erro em vez de interpretação.
Brenner, em particular, chamaria de erro.
Lívia Andrade, violinista, vinte e oito anos, dois anos em Berlim reconstruindo o que havia sido desmontado com uma única caneta, não era supersticiosa.
Não era supersticiosa de jeito nenhum.
Mas guardou a caneta no bolso, por via das dúvidas.
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A questão, ela pensou mais tarde enquanto desdobrava a blusa de concerto e a pendurava com cuidado para as marcas de mala desfazerem, era de lógica. Ela havia vindo a Viena para reconquistar o que havia perdido. O que havia perdido — especificamente, a consideração dos festivais europeus de câmara, dois convites recusados que antes seriam certos, a palavra "promissora" sendo substituída pela palavra "técnica" nos textos sobre ela — havia sido destruído por uma crítica publicada na Europäische Musikzeitung em setembro de 2023.
A crítica havia sido assinada por Brenner.
E Brenner estava aqui. Era o jurado principal. O que significava que ele ia avaliar a performance dela.
Lívia ficou olhando para a blusa de concerto por um momento.
O plano se formou de forma tão natural que ela quase riu. Não riu porque estava sozinha no quarto e rir sozinha de si mesma era uma das poucas coisas que ainda achava constrangedoras, mas a vontade esteve lá. Brenner havia escrito críticas por doze anos. Doze anos de opiniões documentadas, posições editoriais, preferências estéticas, possíveis conflitos de interesse — tudo arquivado na internet, na hemeroteca digital da EMZ, nos arquivos de festivais.
Se havia padrões, ela ia encontrá-los. Se havia vieses, ela ia documentá-los. Se havia conflitos de interesse — um compositor que ele favorecia, uma escola interpretativa que ele sistematicamente desqualificava — ela ia construir um dossiê que tornaria muito difícil para qualquer pessoa séria no meio musical ignorar a questão da credibilidade do jurado principal do Wien Klassik Festival 2026.
Não era vingança. Era pesquisa. Era metodologia.
Era, ela admitia internamente com o humor seco que reservava para si mesma, também um pouco vingança.
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Às 19h havia um coquetel de boas-vindas no salão do hotel. Lívia desceu com a blusa azul-marinho que dizia "competente mas não tentando demais" e encontrou os vinte e um outros competidores em vários estágios de socialização ansiosa. Um rapaz de no máximo vinte e dois anos estava perto da mesa de bebidas com a postura de quem havia chegado cedo demais e estava arrependido. Ela o identificou como Nicolás — o nome estava no crachá — Gallardo, argentino, e pela forma como segurava o copo parecia que era a primeira vez que participava de um festival deste porte.
Antes de descer, Lívia havia lido a lista de competidores. Vinte e dois violinistas de dezesseis países. Ela reconhecera seis nomes: dois que havia cruzado em festivais menores, três que conhecia por reputação, e um — Yuki Tanaka, japonesa, vinte e quatro anos, ganhadora do Menuhin Competition no ano anterior — que era o nome que todo mundo estava olhando. A favorita. A criança prodígio que já não era criança mas ainda assustava salas inteiras com a facilidade com que tocava coisas difíceis.
Uma mulher de cabelos brancos curtos estava encostada numa das colunas do salão com um copo de vinho tinto e um semblante que comunicava que ela havia visto coquetéis de festival o suficiente para estar completamente imune à experiência. O crachá dizia Ingrid Solberg. Norueguesa. Lívia conhecia o nome — Solberg havia tocado no Concertgebouw, no Carnegie Hall, havia gravado os concertos de Bartók numa versão que o Gramophone havia chamado de "definitiva" em 2019. Quarenta e três anos, quatro Grammys europeus, e estava aqui em Viena competindo.
O que significava que ela queria algo que a competição poderia dar, e Lívia ficou curiosa o suficiente para arquivar isso para pensar mais tarde.
Os organizadores chegaram às 19h30, três pessoas com crachás de STAFF, e um homem de cinquenta e poucos anos de óculos redondos que se apresentou como o diretor artístico do festival, Heinrich Kessler. Ele falou em alemão por dois minutos, depois repetiu o mesmo em inglês, dando as boas-vindas, explicando o cronograma da semana, lembrando a todos que os ensaios nas salas do Musikverein começariam amanhã às nove.
"Os jurados não estarão presentes nos ensaios," disse Kessler em inglês, e Lívia sentiu algo relaxar nos ombros dos competidores ao redor dela como um acorde resolvendo. "Primeira avaliação formal é na quarta-feira."
Lívia bebeu seu chá — ela não bebia álcool em período de festival — e observou a sala. Nicolás Gallardo havia encontrado outro competidor jovem e estavam conversando com a intensidade de dois náufragos que se reconheceram. Ingrid Solberg não havia se movido da coluna. Havia uma violinista coreana, Park Jisoo, que Lívia havia visto em Berlim no ano passado e que tinha uma maneira de segurar o arco durante conversa como se estivesse prestes a tocar — um tique de festival, ela supunha, o corpo que não sabia desligar.
Os jurados não estavam no coquetel. Lívia verificou. Era uma separação deliberada, provavelmente para evitar o constrangimento de competidores tentando fazer lobby, o que todos tentariam de qualquer jeito de formas mais sutis ao longo das três semanas.
Ela bebeu o chá até o fim, trocou doze palavras com Nicolás Gallardo quando ele veio perguntar onde ficava a mesa de queijos ("ali, à direita"), e subiu para o quarto às 21h com o programa do festival, o bloco de notas, e a intenção firme de começar a pesquisa naquela mesma noite.
O nome "Maximilian Brenner" no campo de pesquisa da hemeroteca digital da EMZ retornou 847 resultados.
Lívia sorriu para a tela do laptop com a expressão de quem acabava de receber exatamente o que havia pedido.
Abriu o primeiro arquivo.
Era o suficiente para começar.