LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 1
Cinquenta e Dois
A caixa perto da janela tinha escrito COZINHA/LIVROS com caneta azul, e Marta não conseguia decidir se aquilo era uma confusão de sua parte ou uma metáfora que ela ainda não estava pronta para entender. Ficou olhando para a nota por um momento — a letra redonda e firme dela mesma, a barra oblíqua entre as duas categorias como uma solução de compromisso que na hora pareceu suficiente — e decidiu deixar a caixa onde estava. Alguns problemas de classificação se resolviam sozinhos quando você os deixava em paz o tempo necessário.
Eram onze da noite de uma quinta-feira e o apartamento cheirava a tinta latex branca — aquele cheiro específico dos primeiros dias, antes que o espaço se rendesse à presença de quem mora. A tinta estava seca fazia três semanas, o cheiro era só memória, mas Marta percebia que o nariz inventava o que a cabeça precisava: ainda não é seu, ainda dá para sair. Era o tipo de autoengano gentil que ela reconhecia nos materiais de construção também — o gesso fresco que fazia você acreditar que a parede estava pronta antes que a umidade saísse por completo. A aparência de conclusão antes da conclusão real.
Ela não ia sair.
O apartamento tinha noventa e quatro metros quadrados na Lagoa da Conceição, segundo andar sem elevador, janelas voltadas para a rua de paralelepípedo que ficava barulhenta às sextas à noite e quieta às terças de manhã. Ela tinha escolhido o apartamento num sábado de fevereiro, quatro dias depois de assinar os papéis do divórcio, e a corretora a tinha olhado com aquela expressão de quem está calculando se a cliente vai chorar antes ou depois de fechar o contrato. A expressão da profissional que já viu esse tipo de mulher, nessa fase de vida, com esse tipo de urgência discreta. Marta não tinha chorado. Tinha medido as janelas com a trena que carregava na bolsa — uma Lufkin de três metros que estava na bolsa havia quinze anos, um hábito profissional que se tornara reflex — e a corretora havia tido a inteligência de não comentar.
As caixas eram vinte e três. Ela sabia porque tinha numerado na lateral com o mesmo marcador azul, e a lógica de numeração fazia sentido para ela mas para mais ninguém — 1 era roupas de inverno, 17 era a coleção de miniaturas de edifícios que Rodrigo achava empoeirada demais para a sala de estar e que agora ia para onde Marta quisesse, para qualquer superfície que ela escolhesse sem consultar ninguém sobre a funcionalidade estética de objetos inúteis e absolutamente necessários. A caixa 23 era papelada do escritório que ela deveria ter deixado no escritório mas que não conseguiu separar de si mesma na hora de fazer a triagem — projetos antigos, croquis de memória, o envelope com as fotos da cobertura de Jurerê que tinha virado editorial. Coisas que definiam o que ela era independentemente de qualquer estrutura conjugal.
Quinze caixas abertas. Oito ainda fechadas.
Ela sentou no chão com as costas contra o sofá que tinha chegado segunda-feira — um sofá que ela tinha escolhido sozinha pela primeira vez em vinte e dois anos, cor de cinza ardósia, tecido de linho levemente áspero ao toque, sem consultar ninguém sobre o custo ou o tamanho ou se combinava com a poltrona que Rodrigo queria comprar mas que ela nunca comprou porque a poltrona não era dela. O sofá era dela. A aspereza do linho era a textura que ela queria, não a que alguém tolerava. Havia uma diferença enorme nisso que ela estava aprendendo, aos quarenta e nove anos, a nomear com precisão.
Ficou olhando para as oito caixas fechadas como se fossem uma questão de arquitetura que ela ainda não tinha resolvido. Não como se fossem problema — problema tem solução urgente, e essas caixas podiam esperar. Eram mais como aquelas plantas baixas que você recebe de um projeto mal-documentado e que precisa ser lida com cuidado antes de ser alterada: abrir no momento errado, com o humor errado, produz erros.
A questão não era que ela estava adiando. A questão era mais sutil: ela estava aprendendo a diferença entre o que ela queria abrir e o que ela abriria por hábito.
Rodrigo tinha sido um homem bom. Isso ela sabia, e sabia também que essa era uma das frases mais ambíguas do vocabulário humano — um homem bom podia significar tudo e nada, podia ser o epitáfio mais gentil ou a sentença mais definitiva. No caso dele era as duas coisas simultaneamente. Rodrigo era bom, e eles tinham sido, por um longo tempo, razoavelmente felizes dentro de uma estrutura que funcionava — como um edifício funciona quando você não mexe nas paredes e não faz perguntas sobre a fundação. O edifício está em pé, a temperatura interna é adequada, as janelas fecham bem. Ninguém que vive ali precisa pensar no que está embaixo do cimento.
Até que alguém pensa.
Vinte e dois anos.
Ela fazia esses números às vezes, sem propósito além do inventário. Tinha 27 quando casou. Lucas nasceu com 28, pesado e com o teimosia já inscrita no maxilar. Clara com 30, mais fácil de bebê mas com uma vida interior precoce que Marta reconhecia como herança, não como defeito. O escritório de arquitetura de interiores foi aberto aos 35 com a sócia Patrícia, que tinha a habilidade rara de suportar clientes impossíveis sem perder a simpatia — um dom que Marta admirava e não possuía, tendo substituído a simpatia pela competência técnica como estratégia de gerenciamento de clientes. Aos 40, a reforma de cobertura em Jurerê Internacional que virou editorial para uma revista de design e que trouxe os clientes certos durante os três anos seguintes, os que entendiam que revestimento de qualidade é investimento e não ostentação. Aos 45, a consciência nítida de que dormia melhor quando Rodrigo viajava a trabalho — não com alegria, não com animosidade, apenas com o silêncio do espaço próprio — e a culpa que essa consciência trazia consigo com pontualidade.
Aos 49, as caixas.
Não era tristeza o que ela sentia no apartamento dessa quinta-feira. Era algo mais parecido com aquele momento de uma demolição controlada quando a estrutura antiga já foi removida e o espaço novo ainda não tem paredes — o que os arquitetos chamam de fase de possibilidade, que soa mais bonito do que fase de vazio mas que, na prática, é exatamente o vazio com uma luz melhor. A diferença entre os dois era a intenção. Ela tinha intenção. Ainda não tinha forma para a intenção, mas a intenção estava ali, sólida como a estrutura que ainda precisava de paredes.
Ela foi até a cozinha e fez chá. Não porque queria chá — queria vinho, mas o vinho estava numa das caixas fechadas e abri-la agora seria capitular à lógica errada, a lógica do consolo imediato que desconsiderava a ordem natural das coisas. Mas o gesto de ferver água e escolher o saquinho e esperar, olhando para o vapor subir contra a luz da cozinha, era algo que existia fora da narrativa do divórcio. Era só chá. Era só ela na cozinha às onze da noite de uma quinta-feira, como qualquer pessoa em qualquer apartamento, o banal e o específico coexistindo no mesmo ato.
A cozinha tinha sido o primeiro cômodo que ela organizou, no primeiro dia, antes das roupas, antes dos livros, antes de qualquer outra coisa. Prioridade prática — ela precisava comer, e comer fora todo dia era caro e solitário de um jeito que a cansava antes mesmo de começar. Mas havia também outra razão mais honesta: a cozinha era o único lugar do apartamento que não tinha nenhuma memória emocional a ser processada. Era nova, toda ela. Granito cinza claro nas bancadas, que era frio e durável e honesto sobre o que era: pedra, nada mais. Ela tinha escolhido granito porque granito não fingia ser outra coisa. Não imitava mármore, não simulava a textura que não tinha. Era granito, e cinza, e resistente à pressão e ao calor, e isso bastava.
A sala ainda estava em processo, e era onde ela precisava trabalhar devagar. O sofá estava certo — a escolha mais rápida e mais certa do apartamento todo, como algumas decisões que você toma por instinto e que depois confirma com a razão. A estante de madeira de pinheiro — madeira velha que ela tinha comprado num ateliê de móveis em São José, conduzida por um homem de setenta anos que nunca entendeu por que ela queria a peça mais usada em vez da mais nova — estava certa. O tapete ainda estava enrolado contra a parede porque ela não tinha decidido a orientação, e a orientação importava para como a luz da manhã atravessaria o espaço. Esse era o tipo de decisão que ela precisava tomar em silêncio, na hora certa, quando a luz estivesse no ângulo que ela precisava ver.
Rodrigo nunca entendeu isso. Não de um jeito cruel — ele era um homem bom, afinal — mas ele via o tapete enrolado e perguntava quando ela ia colocar, e ela dizia em breve, e ele via a resposta como procrastinação. Para ela era cálculo. O espaço precisava ser lido antes de ser resolvido. Um projeto mal-lido vira um erro caro que você vai olhar por anos sentindo o incomodo específico de uma decisão apressada que não pode ser desfeita sem custo.
O chá ficou pronto. Ela voltou para o sofá com a caneca aquecendo as duas mãos.
Lá fora a Lagoa estava quieta nessa hora — o barulho dos bares ficava mais para a José Henrique Veras, chegava amortecido aqui, processado pela distância e pelo frio de junho até ficar em algo quase agradável, um murmúrio de vida que não invadia. Ela ouvia a água às vezes, quando o vento vinha do sul e atravessava a janela que ela deixava um centímetro aberta por hábito de ventilação, e havia uma garça branca que aparecia na beira da lagoa toda manhã por volta das seis e meia — ela tinha visto pela primeira vez na segunda semana, o pescoço dobrado sobre a água imóvel com aquela concentração que só os animais que caçam conseguem sustentar sem ficarem cansados. A garça estava começando a existir como ponto de referência no espaço, o jeito que os arquitetos reconhecem um elemento estrutural que organiza tudo ao redor sem ser ele mesmo chamativo.
Ela ficou com o chá no colo por um tempo, olhando para a caixa com a nota COZINHA/LIVROS. A barra oblíqua entre as duas categorias. A solução de compromisso que ela mesma havia criado na hora de empacotar, quando estava em piloto automático da separação e as categorias tinham começado a contaminar umas às outras porque as coisas dela não caberiam tão limpamente em categorias como ela havia planejado.
O que ela sabia, fazendo o inventário calmo: tinha quarenta e nove anos. Tinha dois filhos que existiam fora dela, como deveria ser, com suas próprias plantas baixas e seus próprios problemas de fundação. Tinha um escritório que funcionava com uma sócia competente e clientes que voltavam. Tinha setenta e dois mil reais numa conta poupança que eram os dela, não os deles — a distinção ainda nova e ligeiramente estranha, como um peso que você carrega tanto tempo que estranha quando deixa de carregar. Tinha um apartamento que cheirava a tinta nova que logo deixaria de cheirar. Tinha um tapete enrolado contra a parede esperando a hora certa, que chegaria quando chegasse.
O que ela não sabia era uma lista diferente, mais longa que a outra e mais variada em conteúdo, e por ora ela estava deixando essa lista em branco — do jeito que se deixa um muro sem acabamento quando você ainda não decidiu o revestimento. Cimento aparente é uma escolha estética sólida e definitiva. Também é uma solução provisória enquanto você não sabe o que quer colocar ali. A diferença está em quanto você sabe do que quer e na honestidade de admitir quando não sabe.
Ela não sabia ainda. E isso, ela estava aprendendo com uma lentidão que era progresso, estava tudo bem.
Abriu a caixa número seis — SALA, escrito sozinho sem segunda categoria, o único nome de cômodo que não tinha dividido com mais nada — e tirou as miniaturas uma a uma com o cuidado de quem retira material de uma escavação. A Torre de Babel em resina que ela tinha ganhado numa feira em Milão em 2011, levada numa bolsa de papel por todo o regresso até Florianópolis, um pouco absurda na escala mas perfeitamente proportionada ao que a torre representava como ideia. O Pompidou em metal, que Lucas tinha odiado de imediato por causa dos tubos coloridos expostos — "parece encanamento do lado de fora, mãe" — e ela tinha explicado que era exatamente essa a intenção, que Renzo Piano e Richard Rogers tinham decidido honrar a estrutura expondo-a, e Lucas tinha ficado na mesma, mas com respeito. A Fallingwater de Frank Lloyd Wright em madeira que ela própria tinha comprado numa loja de museu em Pittsburgh num congresso de que não lembrava mais os painéis mas lembrava o cheiro de tempero da lanchonete do lado e o peso específico da peça na mão, a madeira densa e escura que replicava em miniatura a lógica de equilíbrio que havia feito a casa real parecer impossível e inevitável ao mesmo tempo.
Colocou as três na prateleira do meio da estante de pinheiro, com espaço entre elas porque objetos desse tipo precisavam de espaço para existirem.
Ficou certa assim. Ela sabia quando ficava certo — havia uma sensação física de encaixe que era difícil de explicar para pessoas que não trabalhavam com espaço, mas que era real e inequívoca como o som de uma estrutura que assenta.
Ela foi dormir um pouco depois da meia-noite. Não tinha decidido nada importante — o tapete seguia enrolado, a lista do que ela não sabia seguia em branco, a caixa COZINHA/LIVROS seguia fechada. Não tinha chorado, o que não era uma conquista porque ela não sentia que havia motivo para chorar, apenas a textura áspera de um encerramento necessário que doía na medida certa, como arranhão que você nota sem drama. Não estava em crise. Estava inventariando. Estava aprendendo, com paciência de arquiteta que havia passado a carreira inteira aprendendo a ler espaços antes de propor soluções, a diferença entre o que pertencia ao casamento e o que tinha sempre sido dela antes do casamento e continuaria a ser depois, e descobrindo que a lista do segundo tipo era mais longa do que ela imaginava, e que essa descoberta era neutra do jeito que os materiais são neutros antes de você decidir o que fazer com eles. O granito não é triste. A madeira não é feliz. São o que são.
A caixa COZINHA/LIVROS ficou fechada por mais três dias.
Quando ela abriu, na tarde de domingo, com o sol de inverno entrando oblíquo pela janela da sala, era chá de camomila e um exemplar surrado de Carlo Scarpa que não tinha lugar na cozinha e nunca teria — Scarpa era arquitetura veneziana do século XX, era detalhes em mosaico e mármore fatiado, era o arquiteto que ela mais amava e que não tinha relação alguma com utensílios de cozinha a não ser que você entendesse que tudo que importava para ela coabitava o mesmo espaço mental sem precisar de lógica de categoria.
Ela colocou o livro na estante, entre o Pompidou e a Fallingwater, onde havia espaço suficiente e onde a lombada vermelha do Scarpa criava uma nota de cor que não tinha planejado mas que ficou certa. O chá foi para o armário.
Fazia sentido, finalmente. Ou talvez sempre tivesse feito e ela só precisasse do tempo certo para ver.